João Batista de Andrade – Diversidade cultural na América Latina

Publicado originalmente no Blog Acesso no dia 21 de maio de 2015.

Inaugurado em 1989, com concepção de seu projeto cultural desenvolvida pelo antropólogo Darcy Ribeiro, o Memorial da América Latina tem na diversidade cultural dos povos da região sua razão de ser. Localizado em São Paulo, ocupa conjunto arquitetônico projetado por Oscar Niemeyer e tem como missão o estreitamento entre culturas ao mesmo tempo diversas e muito próximas.

Por ocasião do Dia Mundial para a Diversidade Cultural, celebrado hoje, dia 21 de maio, o Blog Acesso entrevistou o presidente da Fundação Memorial da América Latina, João Batista de Andrade, para buscar melhor compreender essa pluralidade de culturas que é, ao mesmo tempo, a característica comum de todos os países latino-americanos. Confira a seguir.

Blog Acesso – Quando falamos em América Latina, é sempre destacada a diversidade cultural dos países da região. Como essa característica se reflete na cultura contemporânea?

João Batista de Andrade – Primeiro eu gostaria de abordar algo que sempre digo desde que vim para o Memorial da América Latina. Falamos de América Latina, mas, se fizermos uma análise cultural, antropológica, essa América nem sempre é Latina. Embora o Brasil seja diferente, em grande parte dos países da região o povo é formado por descendentes dos povos originais, os incas, os guaranis, os astecas, os maias, os mapuches, um número muito grande de povos que não são latinos. Essa grande diversidade sobrepassa essa concepção do que chamamos América Latina, que é um termo inventado pelo colonizador, como se fosse uma descoberta de um continente que, na verdade, já era povoado. E essas populações estão presentes até hoje nesses países, são a marca dos povos de países como o México, como os países da América Central, como a Colômbia, a Venezuela, o Equador, o Peru, a Bolívia. É uma diversidade cultural imensa sobre a qual talvez tenhamos refletido pouco.

Blog Acesso – Você se refere a uma ideia de cultura antropológica, que diz respeito aos modos de vida?

J. B. A. – Por exemplo, se formos ver a quantidade de alimentos, de produtos agrícolas que esses povos geraram para o mundo todo, é uma coisa impressionante, um benefício que proporcionaram ao mundo inteiro com o cultivo da batata, do tomate, do milho, do cacau. É uma quantidade impressionante de produtos agrícolas criados por esses povos, que foram sendo cultivados e melhorados por eles. A própria sociedade não tem noção da dimensão dessa diversidade cultural. Esse é um aspecto que precisamos sempre considerar quando pensamos em diversidade cultural, que é algo que vai além do canto que é cantado, da língua que é falada, é a diversidade da vida e envolve coisas tão fundamentais como o alimento que se come. É preciso pensar na diversidade como um todo, com o pensar a estruturação da sociedade, que relação ela teve com esses povos, o legado que eles deixaram para a economia do mundo. Acho que isso é pensar diversidade de uma forma maior.

Blog Acesso – Em que sentido o Brasil é diferente nesse aspecto?

J. B. A. – Particularmente no Brasil, o povo não tem o mesmo tipo de formação do povo desses países que eu citei. O povo brasileiro tem grande influência de imigrantes europeus e, predominantemente, dos negros, e bem menos dos povos originais da região. Os povos originais brasileiros tiveram uma participação menor em relação aos outros países. A predominância cultural da cultura negra e dos imigrantes europeus, árabes, entre outros, é imensa no Brasil, o que, inclusive, explica um pouco da dificuldade de identificação do brasileiro com a chamada América Latina. Aqui estamos mais voltados para o Leste, para a África e a Europa, do que para o outro lado, onde estão esses povos da cultura pré-colombiana.

Blog Acesso – E como essas identidades se manifestam na arte latino-americana?

J. B. A. – Essas identidades se refletem, por exemplo, na música. Em muitos países da América Latina, mesmo a música popular – não do povo, mas popular no sentido de mercado – é muito influenciada por essa cultura original, pela forma de vida, de produção, pela relação desses povos com a natureza, com as fontes de alimento, com os animais. Isso torna a produção cultural também muito diferenciada na América Latina toda. Existem alguns momentos chave para a gente entender o que aconteceu. No México, por exemplo, surgiram os grandes muralistas, como José Clemente Orozco, David Alfaro Siqueiros, Diego Rivera, além de artistas como a própria Frida Kahlo. É importante entender como a Revolução Mexicana conquistou uma certa intelectualidade de origem diversa, inclusive europeia, e isso acabou criando uma cultura que, de certa forma, uniu as coisas. Esses grandes muralistas deram uma cara para a Revolução Mexicana e para a cultura mexicana, fizeram uma representação dos povos mexicanos, da diversidade popular, dos movimentos desses povos, dos camponeses. Talvez esse tenha sido um dos momentos mais fortes da cultura latino-americana, quando a nação se forja nesse confronto interno e ganha a própria intelectualidade. Então você escapa de ser só uma representação da sua origem e passa a ter uma representação de um povo formado por essa mistura. Um dos momentos mais fortes de formação de uma cultura nova, de uma nação criada com tanto conflito.

Blog Acesso – No Brasil, o que representaria essa síntese da diversidade de culturas?

J. B. A. – No Brasil é o samba. Elementos trazidos originalmente da cultura negra que se encontram nesse conflito de ocupação e diversidade de origens de povos e que conseguem fascinar hegemonicamente os artistas, a intelectualidade, de tal forma que perpassa essas origens e se torna uma representação da nação brasileira. Pessoas de todas as origens gostam de samba, um código comum dentro de algo tão diverso. É um processo muito rico e a força dessa cultura vem sempre de baixo, aqui, no Brasil, dos negros e, nos outros povos da América Latina, dos povos originais. A força da cultura e da luta desses povos empurraram a sociedade para criar processos culturais que pudessem representar a sociedade como um todo, provocando mudanças culturais, ganhando apoio e interesse, influenciando as culturas urbanas até criar formas de representação que envolvessem a todos.

Blog Acesso – De que forma o Memorial da América Latina busca atuar para reunir todas essas informações e apresentá-las ao público?

J. B. A. – O Memorial trabalha muito a partir da diversidade de tipos de propostas. É um espaço muito grande, formado por muitos espaços menores, preocupado em trazer a maior quantidade possível dessa diversidade. O Memorial não cria, digamos, uma junção dessa diversidade, as pessoas que o frequentam que começam a ligar os pontos. Aqui você tem o Pavilhão da Criatividade, um museu com características muito particulares idealizado pelo Darcy Ribeiro. Ele reúne obras de arte dos povos da América Latina e é uma exposição fantástica sobre o poder artístico dessas populações, que mostra o nível de desenvolvimento e a grande capacidade de criação desses povos. E é um acervo que nem os países desses povos tem mais, muitas obras só existem aqui. Então a pessoa vem ao Memorial e encontra isso, encontra também obras de artistas plásticos da Colômbia, do Brasil, do Chile, do México. Em um outro espaço ele encontra o mural do Portinari, na biblioteca latino-americana ele encontra 40 mil livros da literatura desse continente. Na praça, temos eventos buscando o máximo de diversidade, temos também o Festival de Cinema Latino-Americano, para trazer a diversidade cinematográfica para o Memorial. Há uma preocupação de não impor nenhum viés ou olhar único, a proposta é ampliar a diversidade das ofertas e deixar que o público vá sendo conquistado e forme uma imagem. Essa é a ideia geral da programação do Memorial.

Bernardo Vianna / Blog Acesso

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