João Aprígio – Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano

Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano - Foto - ASCOM UEM

* Publicado originalmente em VIA blog – Direitos da Criança e do Adolescentes em 19 de novembro de 2014. Aqui reproduzido com edições.

No Brasil, a principal estratégia de combate à mortalidade neonatal, na perspectiva da segurança alimentar e nutricional, é a Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano – Rede BLH. A iniciativa, que completou 30 anos em 2015, é responsável por desenvolver tecnologias e políticas hoje compartilhadas com países das Américas, da África e da Europa. Trata-se da maior e mais complexa rede de bancos de leite do mundo, sistema que tem como elementos estruturantes, segundo seu coordenador, João Aprígio Guerra de Almeida, os trabalhos de pesquisa e desenvolvimento tecnológico conduzidos nos laboratórios da Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz.

“A Rede BLH se estrutura a partir dos trabalhos de pesquisa e desenvolvimento tecnológico conduzidos nos laboratórios da Fiocruz, desde o recipiente para colocar o leite, passando pelo equipamento de pasteurização e o de controle de qualidade, até as novas ferramentas de comunicação e informação, o modelo de ensino e o de treinamento”, explica Almeida, que descreve, em entrevista ao VIA Blog, como a rede foi formada. Confira a seguir.

VIA Blog – Como teve início a Rede BLH?

João Aprígio – Esse é um trabalho que foi iniciado em 1985 e que se estrutura a partir dos laboratórios da Fiocruz – inicialmente no Instituto Nacional de Saúde da Mulher e da Criança Fernandes Figueira – IFF e, posteriormente, unindo esforços com o Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica – ICICT, com o intermédio e sob os auspícios do Ministério da Saúde, que, ao longo desses quase 30 anos, vem investindo em várias frentes. Graças a esses investimentos, a Fiocruz nos permitiu o desenvolvimento de metodologias de baixo custo e amplo impacto social para que pudéssemos coletar o leite de mães que amamentam seus filhos, receber por doação esse excedente, o leite que sobra no peito, e utilizá-lo em um segmento muito especial de crianças, aquelas muito pequeninas, que nascem com muito baixo peso, muitas delas pesando menos de 1200 gramas, além dos recém-nascidos prematuros, aqueles que nascem antes de completar as 40 semanas de idade gestacional.

VIA Blog – E como essa iniciativa se estruturou em rede?

J. A. – Lá em 1985 ainda não havia uma rede. Tínhamos grande preocupação em melhorar a conservação do leite, ampliar o acesso das crianças ao leite humano, ajudar as mães desses pequenos prematuros a produzir leite para os seus próprios filhos, uma vez que o leite tem uma composição muito especial. À medida que colhíamos resultados, começamos a transferir esses princípios, esses fundamentos e essas tecnologias para outros hospitais e foi-se aí dando início à construção da Rede BLH. Em 1985 eram cinco bancos de leite humano. Chegamos, em 1998, a 154 bancos de leite humano já com uma estrutura de operação em rede e com um modelo de gestão no qual a pesquisa, o desenvolvimento tecnológico, a comunicação e a informação são os elementos estruturantes do processo de trabalho. Em 2001, a OMS reconheceu que o trabalho desenvolvido no Brasil pela Rede BLH foi o que mais contribuiu para a redução da mortalidade infantil no mundo durante a década de 1990, nos concedeu o Prêmio Sazakawa de Saúde e solicitou ao governo brasileiro que nós começássemos a compartilhar essa experiência com outros países.

VIA Blog – Aí começa a internacionalização da Rede BLH?

J. A. – Começamos a levar os princípios da rede para Uruguai, Argentina, Equador, Venezuela. Começamos pela América do Sul e fomos para a América Central e Caribe hispânico. Os resultados foram fantásticos. Na cúpula de chefes de Estado da Ibero América, os ministros da Saúde dos países ibero-americanos nos solicitaram uma ação mais integrada, então foi formulada uma proposta para criar o Programa de Apoio Técnico para Implantação da Rede Ibero-Americana de Bancos de Leite Humano. Esse programa foi implantado na Fiocruz em 2008, no ICICT, e nós começamos a fazer esse trabalho de forma mais intensa, passando a apoiar também Portugal e Espanha. Ajudamos a montar o primeiro banco de leite humano de Portugal, na Maternidade Alfredo da Costa. A Espanha já tinha bancos de leite, mas no modelo anglo-saxão, que é diferente do nosso em algumas questões. Apoiamos a implantação do primeiro banco de leite humano em Madri, no Hospital 12 de Octubre, e outros bancos mais foram implantados na Espanha. Também passamos a trabalhar com os países africanos de Língua Portuguesa. O primeiro a receber um banco de leite humano nesse modelo foi Cabo Verde. Esse banco de leite humano funciona desde 2008 e apresenta resultados bastante importantes, impactando a mortalidade infantil no país. E essa rede continua crescendo, na semana passada uma missão aqui do instituto esteve nos Estados Unidos para transferir tecnologia para a Universidade de Michigan para implantar o primeiro banco de leite de lá.

VIA Blog – Mesmo após tantos avanços, a superação da mortalidade neonatal é ainda um desafio?

J. A. – Sem sombra de dúvidas. Em que pese muitas nações terem cumprido plenamente, como no caso do Brasil, os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, a OMS chama a atenção para a importância de se renovar os compromissos para a redução da mortalidade neonatal, que é um dos componentes da mortalidade infantil. O Brasil reduziu a mortalidade infantil de forma extremamente importante, contudo, a mortalidade infantil traz dentro dela o componente neonatal, que são aquelas crianças que morrem até 28 dias após o parto. Esse componente tem sido o mais difícil de reduzir. Obviamente, nós, com os bancos de leite humano, não tratamos a causa dessa mortalidade, que, em geral, está associada a condições de gestação complicada, problemas na gravidez, uma série de fatores que dizem respeito ao ciclo gravídico e puerperal. Porém, nos dedicamos a minimizar os efeitos reduzindo a mortalidade depois que o parto prematuro acontece. Portanto, um investimento importante na reversão dessa mortalidade seria nos fatores que determinam a ocorrência do parto prematuro, que estão associados a fatores da gestação.

E por mais que a gente tenha clareza de que estamos contribuindo para a redução da mortalidade, temos a noção de que, em termos de fornecimento de leite para recém-nascidos no Brasil, nós ainda temos um déficit de pelo menos 40% ou 45%. Ou seja, nos falta ainda percorrer 40% ou 45% do caminho para poder garantir o que já conseguimos fazer em Brasília, por exemplo. Brasília é a única cidade do mundo que é autossuficiente em leite humano e que consegue oferecer leite humano a 100% dos recém-nascidos internados nas unidades de terapia neonatal intensiva e semi-intensiva.

Bernardo Vianna / VIA Blog

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