Ana Mae Barbosa – Direito à cultura e à educação

Ana Mae Barbosa - Foto MinC

* Publicado originalmente no Blog Educação no dia 15 de outubro de 2012. Imagem: MinC.

O direito à cultura, complementar ao direito à educação, é assegurado a crianças e adolescentes pelo Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, assim como os direitos ao lazer e ao esporte. Com o apoio dos estados e da União, cabe aos municípios a garantia e a promoção de tais direitos. Em entrevista, Ana Mae Barbosa, professora de Arte-educação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, fala sobre a importância das artes para o pleno desenvolvimento das capacidades de crianças e adolescentes.

VIA Blog – Qual o papel da arte-educação na garantia do direito à cultura, à educação e ao desenvolvimento pleno?
Ana Mae Barbosa – 
Eu acho que tem que se pensar porque a cultura ainda é domínio das elites nesse país, principalmente a cultura erudita. As crianças e adolescentes de todas as classes sociais têm direito à cultura erudita, à cultura popular e também à indústria cultural, mas de uma maneira crítica.

VIA Blog – O ensino da arte é importante para que se aprenda a dominar diferentes linguagens?
A. M. –
 A arte-educação tem como características desenvolver a capacidade criadora, a percepção e o conhecimento do próprio país, da cultura do país. Ninguém pode se sentir cidadão sem conhecer a arte e a história do próprio país. Mas, ao mesmo tempo, também é preciso conhecer as imagens produzidas pelos outros meios.

VIA Blog – A não garantia de uma educação humanística e crítica poderia ser considerada uma violação de direitos?
A. M. –
 É uma violação de direitos e um empobrecimento do desenvolvimento intelectual. Já está provado que a música, o teatro, a dança, as artes plásticas, desenvolvem a inteligência do indivíduo. Não só a capacidade criadora e a percepção, mas até essa inteligência limitada que é medida pelos testes de QI. Há um pesquisador nos EUA que faz uma meta-pesquisa, o nome dele é James Catterall. Ele faz pesquisas a cerca de estudos que provam que a arte desenvolve essa inteligência que, depois, o indivíduo vai aplicar em outras áreas, na química, na física, na história, em todas as disciplinas escolares.

VIA Blog – E a que conclusões ele chegou?
A. M. –
 Ele chegou à conclusão de que mais de 40 pesquisas já provaram que música desenvolve essa inteligência aplicável em outras disciplinas. Mais de 20 pesquisas provaram que o teatro desenvolve essa capacidade e ele encontrou cinco pesquisas que provam que as artes visuais desenvolvem essa inteligência aplicável a outras áreas. Não que as artes visuais desenvolvam menos, é que há menos pesquisa a esse respeito. Isso é importante de se saber. Se você nega o ensino da arte, você está boicotando o desenvolvimento intelectual.

VIA Blog – E por isso é importante que as artes sejam estudadas nas escolas?
A. M. –
 A elite tem arte na sua casa, vai ao teatro, compra livro de arte, vai à exposição e, se a criança não tiver arte na escola, ela vai se desenvolvendo em casa. Mas e a criança que não tem livro em casa, que não tem jornal, onde ela vai descobrir? Onde ela vai se encantar com a arte? Onde ela vai descobrir essas possibilidades, essa linguagem visual? Como é que ela vai aprender a decodificar, a se acostumar a olhar e analisar uma imagem? Então, eu acho, sinceramente, que é um boicote ao desenvolvimento e é uma violação dos direitos dessas crianças. Agora, eu acho que, para qualquer classe social, a escola tem que dar a conhecer tanto a cultura erudita quanto a cultura popular. A cultura erudita é a cultura do poder, então todos têm que, para chegar ao poder, dominar um pouco desses códigos, mas sem abandonar os códigos da sua própria cultura, do seu próprio meio ambiente, da sua própria sociedade. Nisso, eu sou muito multicultural, acho que temos que ter dentro da escola diversos códigos culturais.

VIA Blog – E como se associam, dentro da escola, a capacidade de contextualizar, de ler a obra de arte e o próprio fazer artístico?
A. M. –
 A contextualização é a mais flexível. A contextualização tem que dialogar com o que está sendo analisado, o que está sendo produzido. Quando eu comecei a trabalhar com a “Abordagem Triangular”, a sistematizá-la, a tônica do fazer sempre foi mais forte. O fazer é muito importante, você projetar na sua cabeça, ter uma ideia e depois transcrevê-la de forma inteligível é um grande exercício de todas as funções mentais. Mas o ver é criador também. A criação está também no ver, na análise na interpretação. E a contextualização tem que estar nos dois, no que eu faço e no que eu vejo. Eu tenho que procurar também contextualizar aquilo que eu faço, quem fez antes de mim, quem está fazendo, o que isso representa dentro da cultura vigente.

VIA Blog – E como a contextualização pode ser trabalhada?
A. M. –
 Por exemplo, eu tenho uma aluna que acabou de fazer um mestrado sobre arte e design, que é uma associação que a gente deveria começar a fazer no Brasil. Onde é que a criança pobre vai descobrir que existe a profissão de designer, que é uma profissão bem paga e que é uma profissão respeitada? Ela trabalhou com crianças de uma cidade muito pobre aqui do estado de São Paulo, uma cidade bem pequena, e ela queria responder ao contexto local primeiro. O primeiro trabalho dela foi conhecer a cidade com as crianças e descobrir o que os pais fazem e como vivem. Ela descobriu que praticamente todos viviam de subemprego. Havia uma olaria nessa cidade, outros viviam de juntar garrafas pet pra vender, outros viviam de hortas e de vender verduras na feira, algumas mães de artesanato. Ela despertou para esse trabalho quando um dia um menino chegou pra ela e falou “professora, hoje, eu estou muito contente porque a minha mãe saiu da cadeia. E eu acho que ela não vai mais voltar pra cadeia porque ela disse que não vai mais vender droga, vai ser só prostituta”. Isso ecoou nela. É preciso saber sobre a vida dessas crianças, não se pode tratar dessas crianças sem conhecer nada.

VIA Blog – E como ela trabalhou esse contexto?
A. M. –
 Ela escolheu quatro obras para trabalhar o ano inteiro. A primeira foi uma do Srur, uma instalação feita na beira do Tietê com garrafas pet gigantes. Dentro do contexto deles, a garrafa pet tem um significado. Mas, eles viram uma outra significação, uma significação de despertar a consciência para o meio ambiente, etc. A segunda obra foi também voltada à vida rural e à vida urbana. Eles vivem em uma cidade, uma zona urbana, mas os valores são todos rurais, então ela escolheu o Almoço na Relva, do Manet. Isso, sem nenhum moralismo, já que tem uma mulher nua no meio de dois homens, e também para enfrentar o fato de a escola ser muito hipócrita, de proibir qualquer reflexão sobre sexo. Na televisão, eles estão vendo isso toda hora.

A terceira obra foi da Faith Ringgold, uma artista negra americana que trabalha com diferentes suportes, com bordado, com colagem de tecido, com desenho. A obra foi a Tar Beach, que mostra a diversão dos negros americanos na rua, tomando sol nas calçadas, nos quintais, o equivalente à laje, à festa na laje. Eles acharam igualzinho às favelas brasileiras. Por último, as cadeiras dos irmãos Campana. Ela apresentou uma profusão de cadeiras dos irmãos Campana. No fim, os alunos se perguntavam qual é a diferença entre arte e design. É uma discussão que é quase insolúvel, nas universidades a gente vive discutindo isso.

VIA Blog – E qual a importância da mobilização da sociedade civil para a garantia do direito à arte?
A. M. –
 Eu acho que os Pontos de Cultura, aliados às portarias do MEC que exigem conteúdo afro-brasileiro, conteúdo indígena e conteúdo local nos currículos, mudaram a face da escola. Estou muito confiante que a Marta Suplicy consiga levar adiante os Pontos de Cultura. É importantíssimo porque a portaria sozinha não adiantava, não tinha nem material. Os Pontos de Cultura é que fizeram a produção de muito material. Eu tenho enorme confiança nas ONGs comunitárias, aquelas que surgem da comunidade, da necessidade da comunidade. Tem coisas extraordinárias nesse sentido no Brasil. Mas desconfio, sinceramente, do trabalho das ditas ONGs vinculadas a empresas. Há sempre o fantasma de sobrepor o marketing à educação. Aí, vira simplesmente um instrumento de tirar a criança da rua para não atrapalhar a classe média nas suas compras. Não pode haver transformação social através da educação se não houver continuidade e algumas dessas ONGs têm mania de ficar pulando de galho em galho, e sempre voltadas unicamente para a subsistência. Sou completamente contra essa coisa de que pobre não pode filosofar. É importantíssimo que ele ganhe dinheiro para se alimentar, mas o alimento intelectual também é muito importante. Porque não há oficinas de filosofia? Porque não uma oficina de física? De química?

Bernardo Vianna / Blog Educação

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