Acesso à leitura, acesso à alteridade

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* Publicado originalmente no Blog Acesso no dia 28 de maio de 2015. Foto do thereader.org.uk.

A última edição da pesquisa Retratos da Leitura do Brasil, publicada em 2012, aponta que o brasileiro lê, em média, quatro livros por ano. É um índice baixo, que reflete a ausência de uma cultura leitora disseminada no país. No entanto, para Christine Fontelles, coordenadora da Rede Temática GIFE Leitura e Escrita de Qualidade para Todos e diretora de educação e cultura do Instituto Ecofuturo, a questão da leitura precisa ser abordada não apenas a partir do número de livros lidos, mas também a partir da qualidade dessa leitura.

“A questão é o que lemos, como lemos, que uso fazemos das leituras realizadas e, sobretudo, quem nos tornamos a partir das leituras. Penso que a questão que deveríamos ter em mente é mais qualitativa e menos quantitativa”, afirma Fontelles ao chamar a atenção para o fato de que, atualmente, não nos tornamos leitores em casa, porque ler não é um hábito familiar, nem nos formamos leitores na escola, pois muitos professores não são formados em suas graduações para promover a leitura. Além disso, segundo a especialista, as bibliotecas estão ausentes em cerca de 63% das escolas públicas, inexistem bibliotecas públicas em quantidade e qualidade de atendimento suficientes e cerca de 90% dos municípios brasileiros não têm livrarias.

“É preciso a tomada de consciência de que não nascemos leitores, nós nos tornamos leitores no convívio e contato cotidiano com livros, leitores e leituras, e de que a leitura é transversal na educação”, acrescenta Fontelles, destacando a necessidade de disponibilizar recursos materiais e humanos para garantir acesso democrático aos livros e à leitura. “Isso tem tudo a ver com bibliotecas abertas à comunidade, integradas ao projeto político pedagógico das escolas, com bibliotecários dedicados a formar leitores, e com formação de professores leitores”, diz.

Fontelles lembra, ainda, das palavras do escritor argentino Alberto Manguel, quando perguntado, em uma palestra, sobre por que os jovens não leem ou porque estão lendo menos, um fenômeno mundial, segundo ela. “Ele disse que a leitura não traz nenhum benefício imediato, que é o que se privilegia nos tempos atuais. Ou seja, a leitura deve ser um valor na sociedade, cultivado na família e ofertado em larga escala por boas políticas públicas de leitura e biblioteca”.

Criada em 2012, a Rede Temática GIFE Leitura e Escrita de Qualidade para Todos amadureceu, ao longo do ano seguinte, a partir de encontros realizados em função de uma cooperação técnica firmada entre o Instituto Ecofuturo e a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República – SAE, então coordenada por Ricardo Paes de Barros. Essa articulação deu origem à publicação Leitura e Escrita de Qualidade para Todos – disponível neste link. A partir daí, os encontros da rede tiveram como objetivo identificar um pensamento convergente sobre o que é leitura de qualidade, e seguem buscando amadurecer o tema e construir uma pauta de cooperação.

Ampliando o acesso

Para Ivani Nacked, diretora do Instituto Brasil Leitor – IBL, é necessário um esforço conjunto do poder público, do setor privado e de demais instituições da sociedade civil para facilitar o acesso ao livro. “Facilitar o acesso à leitura gratuita, atual e de qualidade, é um dos principais pontos que precisam ser discutidos com o intuito de aumentar a média de leitura do brasileiro. Além disso, nós acreditamos que a leitura precisa ser estimulada, desde muito cedo, como um hábito prazeroso e nunca deve estar associada ao castigo ou mesmo à quietude. Já na primeira infância – de zero a seis anos –, o livro deve ser inserido no convívio da criança, tal qual o brinquedo”, afirma.

Programado para os dias 12 e 13 de junho de 2015, o 1º Encontro internacional por um Brasil leitor discutirá, entre outros temas, a experiência das Bibliotecas Comunitárias e das Bibliotecas de Primeira Infância do projeto Ler é Saber, do IBL. “A Biblioteca Comunitária foi a forma que encontramos para levar o livro até as pessoas, colocando-o no caminho delas, seja dentro da empresa onde trabalham, nos transportes públicos ou em locais de grande circulação. Além de facilitar o acesso à leitura, essas bibliotecas dispõem de acervo atual – com livros que podem ser encontrados nas principais livrarias do país –, e de um sistema simples e gratuito de empréstimo”, explica Nacked.

Segundo a diretora do IBL, pesquisa realizada com 500 usuários da biblioteca implantada na estação Paraíso de metrô, na cidade de São Paulo, revelou que 23% desses leitores tinham a biblioteca como único ponto de acesso a livros; e entre os que já gostavam de ler, a biblioteca no metrô ampliou o hábito em 62%. Os resultados da pesquisa estão disponíveis neste link.

Sobre as Bibliotecas de Primeira Infância, idealizadas com a finalidade de contribuir para o desenvolvimento global da criança, respeitando seu meio sociocultural e trazendo o conceito da integração entre o ler e o brincar, Nacked lembra que é nessa etapa da vida que se começa a formar o hábito da leitura. “A presença do livro é tão importante quanto o brinquedo. Associar esses dois elementos permite que o livro faça parte da brincadeira e auxilie a criança a compreender o mundo que a rodeia”, afirma.

Essa ação parte do entendimento de que a leitura é um conceito mais amplo, que não se restringe à palavra escrita. Para Nacked, outras interações culturais que se tem com o mundo também são formas de leitura. “Acreditamos que a leitura também pode ser exercitada por meio de outras linguagens como a música, a arte, um filme, uma brincadeira e uma fotografia. Uma pessoa que lê amplia seu repertório cultural e se torna um ser mais crítico, podendo transformar a si mesmo e seu ambiente de convívio”, conta.

O que é leitura de qualidade?

Segundo a coordenadora da Rede Temática GIFE Leitura e Escrita de Qualidade para Todos, o grupo considera como leitura de qualidade a leitura formativa, conforme descrita pelo professor Luiz Percival Leme Britto. É a leitura “para além do cotidiano imediato, com níveis de complexidade variada, onde há outra esfera de produção intelectual relacionada com a escrita, relativa à interação com os conhecimentos e valores formais, às ciências, às artes, à formação e ao estudo. A ela, associam-se os textos cujos conteúdos e formas de organização transcendem o imediatismo e o pragmatismo, tendendo a ser autorreferenciados e a exigirem maior nível de metacognição”, cita Fontelles.

Sobre a capacidade de transformação social da leitura de qualidade, a especialista diz não ter como prever se mais e melhores leituras formarão seres humanos melhores. “Mas parece certo, olhando a história em retrospectiva, que com mais exercícios de alteridade, e a leitura, em especial de ficção, é um recurso estratégico, tendemos a mais humanidade. Não se trata apenas de formar médicos, mecânicos, professores ou atores, mas de como se formam, quem se tornam e quais compromissos assumem para evitar retrocessos e promover avanços relacionados às conquistas socioambientais”, diz.

Fontelles cita um trecho do livro de Mia Couto, Cada homem é uma raça: “Nenhuma tristeza pode ser explicada. É ferida para além do corpo, é dor para lá do sentimento”. E conclui: “A literatura é um portal para dimensões do viver humano, que transcendem tempo e lugar e permitem uma experiência de alteridade extremamente valiosa para costurar a compreensão de que, para além de pertencer a esta ou àquela raça, a este ou àquele lugar, somos da raça humana, temos uma humanidade comum de cujas dores não podemos nos furtar”.

Bernardo Vianna / Blog Acesso