Pessoa, o mago

Pessoa e Crowley em Lisboa - Fonte desconhecida

Trecho de artigo publicado na Revista Eclética no. 23 em colaboração com Bruno Delecave

Se Fernando Pessoa dispensa apresentações, há um lado de sua figura pouco conhecido do público em geral. Em carta a sua tia Anica, o poeta afirma: “Creio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos e em existências de diversos graus de espiritualidades”. Pessoa dizia-se um cristão gnóstico e, iniciado nas tradições místicas, estudou a fundo astrologia e pensou até em estabelecer-se em Lisboa como astrólogo.

Em dezembro de 1929, Fernando Pessoa escreve para a Mandrake Press, editora de Aleister Crowley, o famoso mago negro inglês, apontando um erro em seu mapa astral: “Se tiverem, como provavelmente têm, oportunidade de comunicar com o Sr. Aleister Crowley, talvez possam informá-lo de que o seu horóscopo não está correto e que, se ele admite que nasceu às 23h e 16m. 39s. de 12 de Outubro de 1875, terá Carneiro 11 no seu meio-céu, com o correspondente ascendente e cúspides. Encontrará então suas direcções mais exactas do que provavelmente encontrou até agora.”

Aleister Crowley, que adotou os nomes mágicos Mestre Therion e A Grande Besta 666, foi uma figura controversa e envolta em mistério. Ocultista, escritor, alpinista e aventureiro, protagonizou inúmeros casos de escândalos sexuais, uso de drogas e chegou a ser expulso da França sob a acusação de ser um agente alemão. Em viagem ao Egito em 1902, após um série de rituais e invocações, um ser que se identificou como Aiwass transmitiu ao mago o Liber Al Vel Legis, o Livro da Lei. Este livro, seu primeiro escrito de cunho místico, anunciava a chegada de uma nova Era regida pela Lei de Thelema, contida na frase “faze o que tu queres há de ser o todo da lei”, popularizada no Brasil pelas letras de Raul Seixas.

Das correspondências trocadas entre o poeta português e o mago inglês, tratando tanto de ocultismo quanto de literatura, Crowley resolve ir a Lisboa para encontrar-se com Pessoa: “Considerei, realmente, a chegada da sua poesia uma verdadeira Mensagem, que gostaria de explicar pessoalmente. Acaso estará em Lisboa nos próximos três meses? Se assim for, gostaria de ir aí visitá-lo: mas sem dizer a ninguém. Informe-me, por favor, na volta do correio. 666.”

Crowley chega a Lisboa em setembro de 1930, acompanhado da maga alemã Hanni Larissa Jaeger. Durante os 15 dias que o casal passa em Portugal, o mago encontra-se duas vezes com Pessoa, uma das quais para combinar a encenação de seu suicídio na Boca do Inferno, em Cascais, o lugar que nunca devolve os corpos de suas vítimas. O papel de Pessoa neste teatro foi identificar como sendo de propriedade do mago alguns objetos encontrados pela polícia no local em que ele teria se suicidado. De fato, interessava a Crowley que se acreditasse que ele estava morto para que escapasse de devedores, maridos ofendidos e rivais dentro de ordens místicas europeias.

Segundo Helena Barbas, da Universidade Nova de Lisboa, esta rocambolesca aventura compartilhada por Pessoa e Crowley tinha, em primeiro lugar, aspirações editorias de ambas as partes. Em carta a um amigo, o poeta comenta: “O Crowley, que depois de suicidar-se passou a residir na Alemanha, escreveu-me há dias e perguntou-me pela tradução, ou antes, pela publicação da tradução.” Ele estava aí se referindo a Hino a Pã, poema de autoria de Aleister Crowley, traduzido por Fernando Pessoa para a língua portuguesa.

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