O Nicolau

Jornal cultural ganha reedição fac-similar

Publicado originalmente no Blog Acesso – o blog da democratização cultural em 7 de novembro de 2014.

Para Márcio Renato dos Santos, jornalista do Núcleo de Edições da Secretaria de Cultura do Paraná, há em Curitiba uma tradição de periódicos culturais e literários traçada desde os jornais simbolistas do início do século passado. Essa tradição passa pela Revista Joaquim, editada por Dalton Trevisan entre 1946 e 1948 e, já entre o final dos anos 1980 e o início dos 1990, é representada pelo jornal Nicolau, recentemente reeditado em versão fac-similar e em versão digital disponível para download.

O Nicolau circulou entre 1987 e 1996, editado pela Secretaria de Cultura paranaense, e teve 60 edições – embora mensal, havia hiatos em sua periodicidade. Para o diretor da Biblioteca Pública do Paraná, Rogério Pereira, são vários os elementos que colocaram o jornal em evidência no cenário nacional. “Primeiro o fato de não ter sido feito em um grande centro, mas em uma cidade periférica como Curitiba; depois por ser uma iniciativa do Estado, não foi uma iniciativa privada. Mas o que realmente marcou o Nicolau foi ter conseguido amealhar, nessas 60 edições, grandes artistas. Havia um casamento quase perfeito entre o arrojo da proposta gráfica, da diagramação, e a presença de grandes nomes da cultura”, avalia.

Além disso, Pereira destaca a grande tiragem da publicação, cuja média era de 76 mil exemplares, atingindo, em sua sexta edição, o recorde de 162,5 mil unidades. Distribuído gratuitamente em bibliotecas públicas e com até 20 mil assinantes, a difusão do Nicolau tinha grande capilaridade. Além disso, o jornal conseguiu circular durante 10 anos em um nicho editorial em que diversos títulos não sobrevivem além das primeiras edições. “Todas essas questões foram fundamentais para que o Nicolau alcançasse essa representatividade que continua tendo até hoje”, observa Pereira.

A trajetória do Nicolau foi marcada por entrevistas e reportagens de fôlego e, de acordo com Santos, o jornal não era pautado por lançamentos, o que o diferenciava do jornalismo cultural mais comumente encontrado. “Para quem, como eu, estava em Curitiba no final dos anos 1980, o Nicolau era algo muito diferente dos jornais diários e da cobertura de cultura desses jornais. Ele trazia conteúdos jornalísticos extensos, entrevistou Hilda Hilst, Jorge Luis Borges e escritores paranaenses como o Paulo Leminsk e o Jamil Snege. Era um conteúdo diferenciado para leitores em formação como eu e tantos outros”, conta Santos.

E além do conteúdo jornalístico havia espaço para a criação literária. Eram publicados poemas, trechos de romances e contos. “E não só de nomes conhecidos, alguns autores iniciaram o seu percurso ali, como o próprio Jamil Snege e o Manoel Carlos Karam. O Rodrigo Garcia Lopes, que acabou de lançar o romance O Trovador após uma longa carreira na poesia e na tradução, era repórter no Nicolau e publicou algumas experiências no jornal. O Nicolau também revelava”, explica Santos.

O trabalho de reedição, de acordo com Santos, que o coordenou, durou mais de dois anos, ao longo dos quais foram tratadas as 1.828 páginas das 60 edições do Nicolau. A tiragem da versão em fac-símile é de 2 mil exemplares, distribuídos por todas as bibliotecas do Paraná e algumas de outros estados, além da versão em PDF que pode ser baixada no site da Biblioteca Pública do Paraná.

Memória e atemporalidade

Para o diretor da Biblioteca Pública do Paraná, a preservação da memória, uma prerrogativa do Estado, é algo bastante precário no Brasil. Esquece-se com facilidade as coisas. Pereira acredita que o Nicolau foi importante durante sua formação como leitor e que esse papel o jornal representou na vida de muitas pessoas. Por isso, além de preservar a memória cultural, o diretor considera importante que as novas gerações também possam ter acesso a esse conteúdo.

Para Santos, o conteúdo publicado no Nicolau é atemporal, pois guarda alguns raros fragmentos da memória da época. A obra de Jamil Snege, que deixou 10 livros publicados, por exemplo, não está em circulação por questões de direitos autorais, mas há um dossiê completo do escritor publicado no Nicolau. “E também é interessante para acompanhar o processo de amadurecimento de algumas prosas. O próprio Wilson Bueno publicou trechos de ficção experimental no Nicolau”.

“A edição número 29, por exemplo, tem uma reportagem da Adélia Maria Lopes sobre as mulheres da Guerra do Contestado. É um conflito menos explorado porque, diferente de Canudos, o Contestado não teve seu Euclides da Cunha. E ela fez As guerreiras do contestado, uma vasta reportagem sobre quem foram essas mulheres. O Nicolau espelha muito a cabeça do Wilson Bueno. Se você for ver, tem muitos escritores latinos, um flerte com o mundo do Borges. O Bueno era muito borgeano. A Josely Vianna Baptista, que era da equipe do Nicolau, se tornou uma grande tradutora dos autores de língua espanhola do continente americano. Ela trazia esse repertório para as páginas do Nicolau”, conta Santos.

Herdeiros

Tanto Santos como Pereira concordam que, mesmo em um momento tão diferente daquele em que foi editado o Nicolau, esse é um tipo de jornalismo cultural que ainda tem espaço. “O Nicolau foi uma experiência bem sucedida, mas, como ela, existem outras experiências. Mais na iniciativa pública, eu acho, do que na privada, até por a manutenção de uma publicação cultural não ser das mais tranquilas”, avalia Pereira.

No Paraná, destacam-se o Rascunho e o Cândido, este último publicado pela Secretaria de Cultura do estado. Uma diferença em relação ao Nicolau, no entanto, é essas publicações serem mais especificamente literárias do que sobre cultura de uma forma geral. “Atualmente o mercado editorial está mais robusto, há mais editoras no Brasil, mais livros sendo publicados, mais autores. Por isso acho que existe espaço para um jornal literário feito por uma biblioteca pública e sendo distribuído gratuitamente”, pondera Santos.

Bernardo Vianna / Blog Acesso

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