Como descobri que a licença paternidade é curta demais

Licença paternidade - foto de Priscilla Guimarães
Licença paternidade - foto de Priscilla Guimarães
Foto de Priscilla Guimarães

*Texto de estreia como colunista no portal Mães de Jundiaí. Publicado originalmente em 11 de dezembro de 2017.

Foi uma grande sorte eu ter sido demitido alguns meses antes de minha filha nascer. Isso parece não fazer sentido? Para mim também pareceria. Mas hoje, olhando em retrospectiva, percebo como foi positivo eu ter me afastado do trabalho naquele momento – considerando que tínhamos algumas reservas e o seguro desemprego. Estar em casa por mais tempo do que os meros cinco dias de licença paternidade permitiu que eu participasse de todo o processo de chegada dela de uma forma que é negada à grande maioria dos homens.

Minha filha chegou em março de 2016, mesmo mês em que a então presidente Dilma Roussef sancionou a Lei 13.257, também conhecida como Estatuto da Primeira Infância, que ampliou para 20 dias o período de licença paternidade, porém apenas para trabalhadores de empresas inscritas no Programa Empresa Cidadã. Cinco ou 20 dias depois de minha filha ter nascido eu mal havia começado a dominar a arte da troca de fraldas e da assepsia de bumbum, entretanto, se eu estivesse em um emprego tradicional, muito provavelmente teria de ter deixado todo o processo de criar vínculos com minha filha recém-nascida para depois do horário comercial.

Eu que nunca havia brincado de boneca e que, para ser sincero, tinha hábitos e horários bastante desregrados, pude aprender como trocar as roupinhas, dar banho, entender o que ela queria dizer com cada choro. Construí, com a mãe dela, nossos horários de acordar, comer, dormir. Estive do lado dela a cada descoberta e a peguei de noite no colo cada vez que ela teve medo ou dor de barriga. Tudo isso sem precisar me preocupar se, no dia seguinte, eu teria de sair cedo de casa para trabalhar e sem me distrair do processo de aprender a cuidar de minha filha respondendo mensagens de trabalho no celular.

Mas sei como isso é incomum

Ao longo desse período, sempre estive consciente de que a minha experiência não condizia com a realidade da grande maioria dos pais brasileiros. Mesmo que a legislação garanta o direito a cinco dias de folga remunerada, muitos relutam em pedir a licença paternidade aos seus patrões, pressionados por uma cultura de machismo ainda presente em muitos lugares: cuidar é para mulheres, homens trabalham. Nada poderia estar mais distante da verdade.

Ao longo de toda a primeira infância, período de zero a seis anos, todo contato com os pais é essencial para o desenvolvimentos da criança, para estabelecer vínculos e desenvolver o aprendizado. Estando o pai, além da mãe, presente para cuidar e brincar, a quantidade de estímulos que a criança recebe dobra. Some a isso as tarefas domésticas que o pai pode realizar enquanto a mãe se dedica a amamentar a criança. E acrescente, por fim, o modo de relacionamento familiar que vai estar sendo apresentado para a criança: todos participam, todos são responsáveis e todos são competentes e capazes, mesmo que com diferenças de habilidades e temperamentos, na construção de um ambiente acolhedor e que ofereça as melhores oportunidades de desenvolvimento para a criança.

Paternidade que repercute em toda a sociedade

É fundamental que também as empresas entendam que um pai presente é um funcionário mais seguro e feliz e que, por isso, não deveriam colocar empecilhos quando um novo pai requer seu direito de acompanhar seu filho recém-nascido em seus primeiros dias. Além do mais, esse pai é um cidadão que participa ativamente da formação de outro pequeno cidadão que, no futuro, ajudará nossa sociedade a conviver de forma mais harmoniosa. Pois, no final das contas, é isso o que um pai realmente presente tem a ensinar aos filhos: convívio em harmonia e com responsabilidade, com cada integrante do grupo contribuindo de acordo com suas capacidades.

A licença paternidade, embora muito limitada, é um mecanismo que ajuda bastante a promover o envolvimento dos pais nos primeiros dias de vida das crianças. Ela auxilia a formar vínculos que, o quanto mais fortes forem, mais provavelmente tornarão esses pais mais presentes também ao longo de todo o desenvolvimento da criança. Como as tarefas relacionadas ao cuidado ainda são culturalmente pouco relacionadas aos homens, poderíamos dizer que, comparando grosseiramente, a licença paternidade teria o papel de um estágio de formação para os homens que estejam aprendendo a dividir tarefas com suas companheiras em relação ao cuidado com os filhos, mas também em relação ao cuidado com a casa.

Ao menos é assim que me sinto. Passado o período em que o seguro desemprego me permitiu uma forma inusitada de licença paternidade, aprendi a estar com minha filha e a cuidar dela. E, ao retornar a trabalhar, percebi que, até o ponto em que o fator econômico me permita escolher, prefiro trabalhos que eu possa desenvolver perto dela e que não me distanciem tanto de casa. Por ter aprendido a cuidar, por ter aprendido o quão importante é a presença de ambos os pais para o desenvolvimento da criança, aprendi que esse exemplo de equidade entre pais e mães terá seu papel no futuro de nossa sociedade.

Bernardo Vianna / Mães de Jundiaí

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