Bernardo Vianna

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Arquivo da categoria ‘Crônica’

Das reformas necessárias às calçadas

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(Publicado originalmente na Revista JLetras)

Meus amigos estão chegando à cidade e faz-se necessário tomar certas providências. Em primeiro lugar, é preciso alargar as sarjetas. Estreitas como são, jamais conseguiremos dormir todos confortavelmente. Também é preciso de mais mesas em frente aos botequins pois as garrafas empilhadas serão muitas. Os camelôs terão de ser afastados para um canto em que não atrapalhem nossa marcha de vagabundos épicos. Ainda, é melhor que se apaguem as luzes dos postes para que não atrapalhem nosso amor que, sempre clandestino, de outra forma poderia ser denunciado. Se os homens de família ou os honestos proprietários nos virem, tolos e nus pelas calçadas, estaremos perdidos. Estes tipos são bem capazes de chamar as autoridades do corpo, para nos prender, ou do espírito, para nos exorcizar.

Tratamos aqui de uma questão política, de disciplinar através do espaço. Este homem médio tem a convicção de que as calçadas foram construídas para levá-lo em segurança à igreja, à escola, ao hospital, à bolsa de valores. Ele se ofende se transformamos o trajeto em lugar, a calçada em salão de baile. Mas meus amigos estão chegando dispostos a uma grande festa. Será preciso reordenar as calçadas. Vamos precisar de calçadas onde se possa esmolar dignamente. Vamos precisar de um terreno sem acidentes para que os saltos das prostitutas não se quebrem. Vamos precisar de arbustos de quando em quando para nos aliviar. Vamos precisar de bancadas para apoiar nossas latas de tinta e escadas para escalar as estátuas e desenhar-lhes bigodes. Vamos precisar de papel e algum anteparo para anotar as atas de nossas reuniões, nossos manifestos e nossos versos.

Enfim, será necessário que as calçadas em ambos os lados se alarguem até se tocarem no meio da rua – sim, expulsemos os carros, metal não se come. Feito isso, a cidade ruirá e todos seremos felizes até quarta-feira.

Escrito por Bernardo Vianna

Publicado às 16:01 de 16/02/2009

Arquivado na categoria Crônica

Etiquetas: cidade, prosa