Bernardo Vianna

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Arquivo da categoria ‘Conto breve’

Formigas são animais fantásticos

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Formigas são animais fantásticos, capazes de viver de forma extremamente organizada apesar da imensa população que habita cada formigueiro. Frankie é uma formiga. Ou melhor, Frankie é a formiga mais ordeira, a que trabalha com mais afinco e dedicação em todo o formigueiro. Frankie é também uma carinhosa babá de larvas, tratando as pequeninas como se ela própria tivesse posto os ovos de onde elas nasceram. Como a vida de qualquer formiga, a vida de Frankie acaba agora, na sexta linha em Times New Roman corpo 12. Por que? Porque algum filho da puta pisoteou Frankie enquanto ela atravessava um caminho de pedras que, por sua vez, atravessa um jardim perto de onde você mora. Porra, será que o babaca não viu que Frankie estava passando? Não, não viu. O babaca, cujo nome, aliás, é Um, atravessou sem olhar para os dois lados, correndo para não per… perdeu. Se fodeu, o ônibus já passou. O próximo só vem depois que os soldados do Rei Dom Sebastião passarem acenando ao povo que os aguarda, pétalas de flor em mãos, nas sacadas dos sobrados. Um vai esperar no mesmo ponto em que você espera todos os dias pelo ônibus que passa em frente ao seu trabalho. Ele liga seja lá que tipo de eletrônico portátil que ele usa para ouvir música e encaixa os fones nos ouvidos. Mas alguém mais quer o eletrônico portátil. Não importa se esse alguém está atrás de algo que possa trocar por cocaína ou por comida. Também não importa se esse alguém simplesmente quer ouvir música em um aparelho eletrônico portátil. O que importa é que o valor do aparelho é o mesmo valor daquilo de que Um abriu mão para poder comprá-lo. Defendendo sua liberdade de consumo, Um leva um soco. Leva um chute. Sente gosto de sangue na boca. Ele enfim tenta gritar, mas tem a cara retalhada por uma garrafa quebrada. A garrafa agora atravessa a banha da barriga de Um. Morto. E levaram o aparelho eletrônico portátil. Algum vagabundo levou o aparelho eletrônico portátil de Um. Dois era o seu nome e ele corria feito um filho da puta. Mas sabe como é vida de vagabundo de rua. Vale menos que a vida de uma formiga. Dois foi atropelado por Três enquanto atravessava aquela rua que passa atrás da sua casa. Foi atropelado porque Três também corria, mas corria protegido por uma exteriorização metálica sobre rodas de sua personalidade. Modelo importado, com kit gás instalado e IPVA pago em dia. O corpo de Dois rolou por cima do parabrisa, mas Três estava pouco se fodendo. Não era a primeira pessoa que ele matava aquele dia. Era, na verdade, a terceira. Antes ele havia matado a própria esposa, que encontrara com o pau do dono do açougue – aquele açougue onde você compra asas de frango já temperadas – na boca. E, para não ser injusto, matou também o dono do açougue. Quatro e Cinco, a mulher adúltera e o açougueiro, vão ter os nomes estampados nas páginas do jornal que você lê toda amanhã. Talvez até suas fotos, ou ainda, as fotos de seus corpos mortos, ganhem um espaço. A matéria já está sendo apurada por Seis, que foi perguntar às autoridades competentes os números da violência na cidade em que você vive.

Escrito por Bernardo Vianna

Publicado às 23:36 de 25/03/2009

Arquivado na categoria Conto breve

Etiquetas: cidade, prosa

Estava

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Dobrou a esquina com o coração aos pulos. Depois de tantos anos, por Deus, tantos! Finalmente… Parou antes da cancela descer, ouvira a sinalização sonora. Contou os vagões, os 16, todos de carga. Imaginou como gostaria de ter vivido anos atrás, quando havia vagões de passageiros naquela linha. A cancela subiu, ele atravessou os trilhos, desceu a rua. No final dela, a praça, a árvore, lembrou de Tereza, lembrou de Lia e das saídas da missa. A velha igreja ainda estava lá, ainda com o campanário em ruínas. Por aqui nada se reforma.

Já ia pelo outro lado da praça, o coração sem encontrar compasso, palpitando. Passou por um bando de meninos chutando lata. Era fim de tarde e as pessoas saíam para tomar a fresca, os mais velhos em cadeiras nas calçadas. Alguém reparou nos pássaros voando baixo, outro em como tem mosca hoje: deve chover. Passou a rezadeira, “Ê, Miguilim, não pede a bença?” Os olhos pesaram, nublaram, “Bença, madrinha”. A velha abençoou e seguiu seu caminho. Ele a viu atravessar a praça. A madrinha não reparara que ele estivera fora todos aqueles anos ou os anos simplesmente não passaram por ali.

Chegou no portão, ajeitou o paletó, pegou o lenço, secou o suor do pescoço, bateu palmas. Veio a tia vestindo preto, vela acesa na mão. O cachorro veio atrás, ressabiado. “Fez boa viagem, meu filho?” O nó na garganta ficou apertado. Arrumou o nó da gravata. “Fiz sim, minha tia… Ela tá lá dentro?” Estava.

Escrito por Bernardo Vianna

Publicado às 10:47 de 11/02/2009

Arquivado na categoria Conto breve

Etiquetas: prosa