Bel Santos Mayer – Transformar a realidade com metáforas

Publicado originalmente no Blog Acesso no dia 10 de setembro de 2015.

Coordenadora do Polo de Leitura LiteraSampa, Bel Santos Mayer atua no Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário – Ibeac, organização que, em 2008, iniciou um trabalho com adolescentes da região de Parelheiros, na Zona Sul de São Paulo, tendo a literatura como referência. Hoje, os jovens adultos gerenciam uma biblioteca comunitária articulada a ações de mobilização social em toda a região.

Por falta de outro espaço disponível, a biblioteca está instalada dentro do Cemitério da Colônia, o mais antigo da cidade, e aproveita essa característica como metáfora para o resgate da memória da comunidade. Confira, na entrevista a seguir, como se desenrolou essa história.

Blog Acesso – Você falou, em uma oficina, sobre transformar as realidades com metáforas e sobre como a gente precisa da fantasia para transformar a realidade. Como a ficção pode transformar a realidade?

Bel Santos Mayer – Isso eu aprendi com o Antonio Candido, no texto dele sobre o direito à literatura, no qual ele sistematizou algo que a gente estava experimentando. Não tenho dúvida do poder que a arte e a metáfora têm de transformar a vida. E a ficção traz isso. Ela possibilita ocupar outros lugares e, pela história de outros personagens, perceber que os destinos não estão dados, você pode ter um outro final. O grupo Sementeiras de Direitos, um grupo de meninas que se reúne na biblioteca, tem como lema “minha história eu que escrevo”. Não queremos ser escritos e contados apenas pelo outro, a gente quer escrever nossa própria história. E como fazer isso sem um repertório de histórias? Sem fantasiar em cima da realidade? O que a gente tem visto na biblioteca, ao longo dos seis anos em que estamos trabalhando com o grupo de jovens, é esse poder transformador da literatura na vida deles. A literatura tem proporcionado a valorização das histórias e das memórias da comunidade. Quando eles conseguem ler livros de pessoas contando as histórias de seu país, de sua família, eles levantam essa questão: qual é a nossa história, a história das pessoas que vieram parar aqui? E então eles fazem da biblioteca uma guardiã das histórias e memórias da comunidade.

Blog Acesso – Como surgiu a biblioteca comunitária de Parelheiros?

B. M. – Fomos para Parelheiros [Ibeac] em 2008, pois havíamos decidido concentrar nossas ações no território que tivesse os piores indicadores dentro da cidade de São Paulo. Encontramos duas regiões na Zona Sul, que além dos indicadores ruins tinham um tecido social muito esgarçado, não havia mobilização social ali. O que existia eram as escolas e as Unidades Básicas de Saúde – UBS, e foi com elas que a gente começou a dialogar. E quando elas trouxeram essa informação de que não havia projetos com jovens, a gente propôs convidar 70 jovens para reescrever a Declaração Universal dos Direitos Humanos – que completava 60 anos na época – para que eles entrassem em contato com seus direitos e avaliassem se esses direitos estavam sendo garantidos. Entre as observações relacionadas ao direito à educação apareceu a questão de lá não haver nenhuma biblioteca. Então, criamos o projeto Pílulas de Leitura, pois a biblioteca ficaria dentro da UBS. A ideia era que os meninos fizessem mediações de leitura na sala de espera e lessem para as pessoas, enquanto os médicos participavam receitando livros. Pouco tempo depois, quando a biblioteca se tornou um espaço de discussão e conquista de direitos, surgiu a questão da falta de dentista na região. O dentista, então, foi ocupar o espaço da biblioteca na UBS, e a comunidade nos ajudou a encontrar um novo lugar para os livros. Como a região é uma área de proteção ambiental e não conta com muitos espaços disponíveis, nos indicaram a antiga casa do coveiro, no Cemitério da Colônia.

Blog Acesso – E como foi transformar o cemitério em espaço de leitura?

B. M. – Desde que estamos lá, há cinco anos, temos feito um trabalho de ressignificação do lugar. A biblioteca foi recuperada dentro dos princípios da permacultura, com captação de água de chuva, banco em forma de arena construído com superadobe, horta. E começamos a recuperar o sentido de estar dentro de um cemitério. Na região existem duas aldeias indígenas, uma cultura que sempre viveu próxima dos seus mortos – esse afastamento dos mortos é uma questão mais ocidental. A biblioteca, que guarda a memória, está perto dos mortos da comunidade e, a partir disso, começamos a discutir sobre como estar ali não é motivo de vergonha, mas de orgulho, de conseguir ocupar um espaço.

Blog Acesso – Foi assim que surgiu o Sarau do Terror?

B. M. – Como muita gente tinha medo dessa história de cemitério, eles pensaram em, no lugar de comemorar o Halloween, realizar um encontro que começa com oficinas de poesia, desde o mês de setembro, nas escolas locais, criando poesias sobre a morte e sobre o medo com os alunos do ensino médio. O Sarau do Terror, que este ano vai ser no dia 7 de novembro, começa com uma visita ao cemitério, que é bem pequeno, mas está em processo de tombamento por ser o primeiro cemitério de São Paulo. Em volta dos túmulos, os adolescentes fazem as leituras dos poemas que escreveram sobre morte e medo. Depois há leituras de contos de terror, uma roda de conversa sobre a morte nas várias culturas, nas várias religiões, e uma festa. No último ano havia mais de cem crianças ouvindo o contador de histórias Giba Pedroza e morrendo de medo, porque ele selecionou diversos contos que falavam de cemitério. É muito bacana ver os jovens sendo gestores da biblioteca e dos eventos culturais que acontecem na comunidade. A biblioteca é um Ponto de Cultura municipal desde o início de 2015 e a ideia é multiplicar os eventos que acontecem na comunidade. O único critério que levamos a eles é o de abordar a literatura em todos os eventos. A literatura é a referência para as ações que a gente desenvolve lá, como o cine debate e o clube de leitura.

Blog Acesso – O projeto se preocupa em dar autonomia aos jovens? Como eles gerenciam a biblioteca?

B. M. – Eles têm total autonomia. São cinco jovens, chamados de articuladores e mediadores de leitura, que são gestores da biblioteca. Eu e uma outra educadora vamos à biblioteca uma vez por semana, mas são os jovens que abrem e fecham a biblioteca, que fazem a gestão financeira. Existe um recurso do Ponto de Cultura que eles gerenciam e depois fazem a prestação de contas. Eles ainda não são uma associação, mas acho que vamos caminhar para isso. O convênio da prefeitura é com o Ibeac, então eles fazem a prestação de contas, mandam para a gente e nós conferimos e enviamos. Eles também organizam as visitas à biblioteca, participam dos eventos literários da cidade.  Eles são uma referência para a comunidade. Recentemente, a região se tornou Polo de Ecoturismo e um dos jovens é candidato a participar do conselho. Eles já fazem parte das principais articulações da região.

Bernardo Vianna / Blog Acesso

Foto: LiteraSampa