Alemberg Quindins – Escola de Comunicação da Meninada do Sertão

Publicado originalmente em VIA blog – Direitos da Criança e do Adolescentes em 9 de setembro de 2014.

A Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri coleciona títulos. Localizada em Nova Olinda, interior do Ceará, recebeu do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan, por exemplo, o de Casa do Patrimônio da Chapada do Araripe e, do Ministério da Cultura – MinC, a Comenda da Ordem do Mérito Cultural. Entre os muitos prêmios, o mais recente é o primeiro lugar nacional no Projetos com Participação Infantil – CECIP, em reconhecimento à Escola de Comunicação da Meninada do Sertão, projeto desenvolvido pela fundação.

Gerido pelas crianças, o projeto coloca à disposição delas os recursos necessários para que produzam rádio, TV, quadrinhos e blogs. Além do trabalho em comunicação, a Fundação Casa Grande, por meio do protagonismo infantil e juvenil, tornou-se referência, também, em turismo comunitário. Nova Olinda, com isso, é hoje um dos 65 destinos indutores de turismo regional identificados pelo Ministério do Turismo.

A história da fundação começa em 1992, quando seu idealizador, Francisco Alemberg de Souza Lima, mais conhecido como Alemberg Quindins, transformou a antiga casa grande da fazenda de sua família em centro cultural. Além do resgate da memória do povo da região, o Vale do Cariri, a ideia é desenvolver a autonomia das crianças a partir dos laboratórios de comunicação onde os mais velhos ensinam os mais novos e que recebem contribuições de profissionais de todo o país.

VIA Blog – Como surgiu a Escola de Comunicação da Meninada do Sertão?

Alemberg Quindins – A escola de comunicação nasceu do resgate do sistema de amplificadora [sistema de alto-falantes] que foi criado na década de 1940 em Nova Olinda. Naquela época foi criado um sistema para, nos finais de semana, tocar música na praça, servia para mandar mensagens para as namoradas. E quando a gente restaurou a casa em que está instalada a Fundação Casa Grande, resgatamos também a amplificadora, que era de meu pai, pois ainda tínhamos os discos que eram tocados por ela. Montamos novamente o sistema, mas com quatro alto-falantes em cima da casa, cada um virado para um ponto cardeal. Aí começamos a fazer três programas de rádio: um chamado Baú da Saudade, feito com os discos da época da amplificadora; outro de música regional, forró, baião, para o povo que vinha do sertão para a feira na cidade; e o terceiro programa era um programa infantil chamado Submarino Amarelo. A gente tinha uma versão infantil da música dos Beattles, cantada em português, e fez esse programa para chamar as crianças para a Casa Grande. Com esse resgate da amplificadora Voz da Liberdade – que era o nome na época – surgiu o sistema de comunicação da Fundação Casa Grande.

VIA Blog – E a partir desse sistema surgiu a escola?

A. Q. – O Unicef viu esse trabalho de comunicação com as crianças e apoiou a melhoria dos equipamentos da amplificadora. Junto com o Unicef, criamos a Escola de Comunicação da Meninada do Sertão. Depois da rádio, veio o segundo projeto, que foi de televisão. A gente montou uma ilha, na época, de edição Super-VHS. Vinham muitas equipes de TV fazer matérias na fundação e as crianças começaram a achar legal aquilo e deram a ideia de a gente fazer uma TV. Então fizemos a TV Casa Grande. Os meninos começaram tanto a filmar como a editar cenas do cotidiano da cidade, a entrevistar rezadeiras, mestres do folclore local, entrevistar figuras folclóricas do município – tanto pessoas como grupos de tradição cultural. A rádio, de rádio de alto-falantes passou a ser uma rádio comunitária. Estamos agora com dois processos no Ministério da Comunicação, um para transformar a rádio comunitária em rádio educativa, para o nosso sinal chegar mais longe, e um processo para obter a concessão de TV comunitária. A ideia é fazer a primeira TV do planeta toda roteirizada, filmada, editada e levada ao ar por crianças.

VIA Blog – Como as crianças aprendem essas atividades na fundação?

A. Q. – Hoje as crianças aprendem com as próprias crianças. Eles começam nesse sistema de entrar na rádio, de editar. Hoje também fotografam, temos também o laboratório de quadrinhos, a Casa Grande Editora, e o laboratório de webdesign, que surgiram como consequência dos anteriores. Com quatro ou cinco anos de idade eles já estão na rádio e na TV e aprendem com os outros mais velhos. Hoje, até os filhos dos que entraram no projeto em 1992 já frequentam os laboratórios. Então é uma experiência de uma instituição literalmente gerenciada pelas crianças e pelos jovens, desde a receita financeira à definição dos equipamentos que precisam ser comprados. As crianças chegam de manhã na casa, organizam tudo e passam a fazer esses laboratórios, não existem professores adultos. Existem pessoas que passam pela fundação, que vem do Rio, de São Paulo, de fora do Brasil, e repassam coisas para as crianças, dão oficinas. Foi criado um grupo dos amigos da fundação, que estão espalhados pelo mundo inteiro. São donos de estúdios, são pessoas da área de comunicação, de educação, que vem passar férias na casa grande e, enquanto estão aqui, promovem vivências com os mais velhos, que vão repassando para os mais novos.

VIA Blog – E como é a gestão da casa com a participação das crianças?

A. Q. – As crianças organizam toda a casa. Toda a gestão é feita por eles, então eles sabem quanto custa a casa grande. Normalmente, a gente vê experiências com crianças e jovens, mas existe um pouco de adulto ali. Na fundação é diferente, são as próprias crianças que a gerenciam. Ela tem um orçamento de manutenção básica de 48 mil reais por ano, então eles têm esse capital para gerenciar a fundação. A gente faz convênios com instituições e quem nos apoia com esses 48 mil por ano é o Sesc, que está fazendo em parceria um laboratório de gestão financeira e de gestão cultural.

Bernardo Vianna / VIA Blog

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