O Teatro Mágico e os novos rumos da produção de cultura

(Publicado originalmente na Revista Bagre - Edição de fevereiro de 2010. Fotos: Carlos Pinheiro.)

Esta história começa em 2003, na cidade de Osasco. Fernando Anitelli, ator, músico e compositor, formou, em dezembro daquele ano, junto com amigos e artistas que acreditaram no projeto, o grupo O Teatro Mágico. Reunindo as linguagens da música, do teatro e do circo, a trupe logo se tornou sucesso de público e arrebatava fãs por onde passava com seu espetáculo. Trabalhando de forma independente, sem o apoio de gravadoras ou grandes campanhas midiáticas, O Teatro Mágico atingiu algumas marcas impressionantes: dois discos de estúdio que, juntos, ultrapassaram as 190 mil cópias vendidas; um DVD que já vendeu mais de 40 mil cópias; mais de um milhão de downloads feitos e mais de cinco milhões de transmissões de músicas dos dois discos. Ainda 39 músicas do grupo estão entre as 50 primeiras no Top 100 da Trama Virtual.

Em dezembro passado, o Teatro Mágico esteve em Jundiaí e levou cerca de três mil pessoas, segundo a produção do evento, ao Parque da Uva para a primeira edição do Projeto Música Livre. O grupo se apresentou com sua escalação habitual de músicos e artistas circenses, composta por Fernando Anitelli (voz, violão e guitarra), Fernando Rosa (contra-baixo), Nenê dos Santos (bateria), Willians Marques (percussão e malabares), Galdino Octopus (violino e bandolin), DJ HP (pick-ups e sonoplastia), Daniel Barros (sax e flauta), Kleber Saraiva (teclado), Rober Tosta (ator circense), Gabriela Veiga (artista circense)  e Matheus Bonassa (artista circense). No mesmo dia, também se apresentou a Brasil In Conserto, banda de Jundiaí que entrevistamos na segunda edição da Bagre.

Teatro Mágico 01 - Foto Carlos Pinheiro Teatro Mágico 02 - Foto Carlos Pinheiro Teatro Mágico 03 - Foto Carlos Pinheiro

O Teatro Mágico e o caminho da colaboração

Dificilmente você vai encontrar o Teatro Mágico tocando nas rádios ou se apresentando na televisão. O habitat midiático natural da trupe é formado pelas vias de duas mãos da Internet e dos palcos. Seus discos podem ser integralmente baixados de diversos sítios da Internet ou encontrados à venda, durante as apresentações do Teatro, por valores entre 5 e 15 reais. Para “viralizar sem jabá”, nas palavras de Anitelli, o grupo faz uso principalmente do boca a boca, em especial do que se propaga por comunidades na web, Twitter, blogs e afins.

No site do Teatro Mágico, Anitelli explica: “Em agosto (de 2009), cerca de 400 internautas acompanharam a gravação da primeira versão da música “O que se perde enquanto os olhos piscam”, feita totalmente ao vivo pela rede. Essa canção, composta interativamente com os internautas, foi disponibilizada no site e já é uma das mais baixadas, evidenciando que o que é feito com colaboração aumenta as possibilidades de quebrar barreiras”.

Aprofundando as discussões

Desde o segundo disco, uma pitada de ativismo vem se incorporando ao universo lúdico do Teatro Mágico. Músicas como “Cidadão de Papelão” e “Mérito e o Monstro” são exemplos da preocupação em se debaterem temas da sociedade contemporânea, respectivamente a realidade de moradores de rua e a mecanização do trabalho. Há cerca de seis meses, foi lançado o movimento MPB – Música para Baixar, cujo manifesto o Teatro Mágico assina. “Formamos aqui o movimento Música para Baixar: reunião de artistas, produtores(as), ativistas da rede e usuários(as) da música em defesa da liberdade e da diversidade musical que circula livremente em todos os formatos e na Internet. Quem baixa música não é pirata, é divulgador! Semeia gratuitamente projetos musicais”, defende o manifesto MPB.

Em janeiro deste ano, o Teatro Mágico esteve em Porto Alegre para o Fórum Social Mundial. O grupo subiu ao palco para realizar o show de abertura do FSM 2010, na Usina do Gasômetro. Após o show, membros e representantes da trupe participaram de diversos diálogos que compuseram a agenda do fórum deste ano. A principal atividade de que os integrantes participaram foi o Diálogo Interplanetário de Cultura Livre, que aconteceu nos dias 26 e 27 de janeiro, no Parque Eduardo Gomes. No encontro, pessoas de diferentes movimentos ligados à cultura livre propuseram e debateram alternativas ao modelo atual de propriedade intelectual e práticas culturais que superem o modelo de cultura regulada pelo mercado.

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Bate-papo com Fernando Anitelli

O que é o movimento MPB?

O movimento MPB é o movimento Música para Baixar. Ele surge justamente num momento em que toda uma geração começa a fazer download de música, começa a se perguntar sobre o direito autoral, sobre o acesso livre aos bens culturais… E o movimento Música para Baixar trata disso, discute sobre direito autoral, sobre o acesso livre aos conteúdos, sobre o ECAD, sobre a Ordem dos Músicos do Brasil, enfim, articula grupos que estão na mesma situação. A gente vai projetar festivais para o ano que vem (2010), porque a ideia é essa, fazer com que essa nova geração, principalmente todo mundo que curta música, possa entender a cadeia produtiva da música. E é isso que a gente faz através de oficinas e debates representando o movimento Música Para Baixar.

O Teatro Mágico trabalha com uma linguagem que reúne circo, música, literatura… E onde entra o Lobo da Estepe nisso tudo?

O Lobo da Estepe foi justamente o primeiro momento desse projeto todo. Justamente quando eu estava lendo esse livro me deparei com aquele momento em que o personagem se depara com aquela placa “hoje a noite teatro mágico entrada para raros”. Ele acredita que aquilo não é para ele, ele quer ir embora, quando olha “só para raros, só para loucos”, mas ele entra e ali se descobre plural, o personagem descobre a própria pluralidade. Isso é fabuloso porque a gente é assim. Diariamente nós não somos somente um em um milhão, somos um milhão em um. As maneiras como a gente resolve reagir às coisas do cotidiano são muito distintas, então é buscar esse melhor personagem que vive em nós. E o palhaço traduz isso. Então juntei essa ideia do Lobo da Estepe, essa inspiração – porque a ideia não é traduzir o livro de maneira alguma, ele serviu como inspiração. Eu peguei isso aí e misturei com a ideia do sarau, que é aquela variedade de timbres, de cores, misturei numa coisa só e a gente foi aprendendo a montar, a fazer isso aí esse tempo todo.

Vocês têm uma relação muito próxima com o público, composto principalmente por jovens. Vocês sentem a responsabilidade dessa comunicação direta com esse público?

Poxa, a gente sente o peso dessa responsabilidade, a gente sente a cada dia que passa, a cada momento que aumenta o número de pessoas que nos acompanham no Twitter, nos acompanham nas comunidades, o número de pessoas que começam a aparecer nas apresentações… E eu sempre disse que o artista tem uma responsabilidade social, ele não pode achar que circular de maneira colorida e entreter está de bom tamanho. Isso não nos cabe e não nos serve, a gente não quer isso, a gente quer justamente trazer esse debate, certas colocações, algumas críticas. Tudo o que a gente sempre fez foi junto ao público, o público sempre participou e até hoje é cada vez maior a participação dele de uma maneira colaborativa junto com o Teatro Mágico. É o público que alimenta o site com fotos, vídeos, textos, é o público que nos ajuda a arrumar lugares para a gente tocar. Nas comunidades, a gente vai e pergunta “sabe de algum lugar?”. O público dá ideia, indica. Então essa maneira de se fazer música, de se trabalhar música e se comercializar inclusive… todo nosso conteúdo foi sempre gratuito, você consegue tudo de graça na Internet, na rede, ou por 5 reais no saquinho, 10 reais na caixinha e 15 reais o DVD, todas as possibilidades para a pessoa ter acesso ao nosso material. Então é dentro desse “case”, dessa vivência, dessa experiência que a gente passa para o público essa experimentação, essa vontade de fazer as coisas junto. Tudo o que é feito de uma maneira colaborativa nos surpreende no resultado final.