Artigos publicados em março, 2009
[G20] Nós vivemos de crimes financeiros
A poucos dias da cúpula do G20, em Londres, manifestantes anti-capitalismo publicaram, nesta sexta-feira (27/3), uma edição falsa do Financial Times, com notícias de brincadeira sobre o Reino Unido e o mundo. A edição de 12 páginas parodiou o slogan do jornal, “We Live in Financial Times” (nós vivemos em tempos financeiros, em tradução literal) com a frase “We live on Financial Crimes” (nós vivemos de crimes financeiros). Os exemplares foram distribuídos na movimentada estação londrina de Waterloo.
Continue lendo este artigo no sítio do Observatório da Imprensa.
Versão online da edição anticapitalista do Financial Times.
Leia também: Falso New York Times distribuído em Manhattan
Andaluza
às vezes desperto de algum sonho que é também memória de outras vidas das quais herdei meu amor pelos desertos e por aquelas figuras de fogo que dançam aquecendo o ar com sua carne sagrada e sobem ao céu escuro para brincar de guias de andarilhos e amantes clandestinos de lá se lançando e riscando de luz a noite para por fim dormir cobrindo toda a paisagem como se fossem poeira ou neblina pois quando desperto carrego comigo senão saudade de causar inveja a Deus ele próprio sempre tão solitário embora trace a coreografia do cheio e do vazio
Lista suja do trabalho escravo no Brasil
Existe um sistema de consulta online sobre propriedades rurais processadas por submeterem trabalhadores a regime de escravidão. O sítio da Repórter Brasil, onde a lista suja de propriedades pode ser consultada, explica: “A Organização Internacional do Trabalho, o Instituto Ethos e a ONG Repórter Brasil desenvolveram este sistema de busca facilitado com base no Cadastro de Empregadores da Portaria 540 de 15/10/2004 – a chamada lista suja divulgada pelo governo federal. Dessa forma, as empresas signatárias do Pacto Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo podem consultar se determinada propriedade está na relação. A ferramenta é de grande importância para que o setor empresarial cheque com rapidez quais fazendas devem ser suspensas das listas de fornecedores.”
Ainda segundo a Repórter Brasil, a lista é atualizada regularmente e, para determinar quais propriedades serão listadas ou retiradas da lista, o seguinte procedimento é tomado: “Segundo as regras do Ministério do Trabalho e Emprego, a inclusão do nome do infrator acontecerá após o final do processo administrativo criado pelos autos da fiscalização. A exclusão, por sua vez, depende de monitoramento do infrator pelo período de dois anos. Se durante esse período não houver reincidência do crime e forem pagas todas as multas resultantes da ação de fiscalização e quitados os débitos trabalhistas e previdenciários, o nome será retirado.”
O jornalista Leonardo Sakamoto apontou, em seu blog, um interessante dado. Cruzando a lista acima com a lista de municípios que mais desmatam no Brasil – responsáveis por 55% do desmatamento na Amazônia Legal no ano passado -, o jornalista verificou que em grande parte dos municípios listados há propriedades processadas por trabalho escravo. “O que não é coincidência, uma vez que trabalho escravo tem sido utilizado na derrubada da floresta amazônica, principalmente para a implantação ou ampliação de pastos e carvoarias”, denuncia Sakamoto.
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Formigas são animais fantásticos
Formigas são animais fantásticos, capazes de viver de forma extremamente organizada apesar da imensa população que habita cada formigueiro. Frankie é uma formiga. Ou melhor, Frankie é a formiga mais ordeira, a que trabalha com mais afinco e dedicação em todo o formigueiro. Frankie é também uma carinhosa babá de larvas, tratando as pequeninas como se ela própria tivesse posto os ovos de onde elas nasceram. Como a vida de qualquer formiga, a vida de Frankie acaba agora, na sexta linha em Times New Roman corpo 12. Por que? Porque algum filho da puta pisoteou Frankie enquanto ela atravessava um caminho de pedras que, por sua vez, atravessa um jardim perto de onde você mora. Porra, será que o babaca não viu que Frankie estava passando? Não, não viu. O babaca, cujo nome, aliás, é Um, atravessou sem olhar para os dois lados, correndo para não per… perdeu. Se fodeu, o ônibus já passou. O próximo só vem depois que os soldados do Rei Dom Sebastião passarem acenando ao povo que os aguarda, pétalas de flor em mãos, nas sacadas dos sobrados. Um vai esperar no mesmo ponto em que você espera todos os dias pelo ônibus que passa em frente ao seu trabalho. Ele liga seja lá que tipo de eletrônico portátil que ele usa para ouvir música e encaixa os fones nos ouvidos. Mas alguém mais quer o eletrônico portátil. Não importa se esse alguém está atrás de algo que possa trocar por cocaína ou por comida. Também não importa se esse alguém simplesmente quer ouvir música em um aparelho eletrônico portátil. O que importa é que o valor do aparelho é o mesmo valor daquilo de que Um abriu mão para poder comprá-lo. Defendendo sua liberdade de consumo, Um leva um soco. Leva um chute. Sente gosto de sangue na boca. Ele enfim tenta gritar, mas tem a cara retalhada por uma garrafa quebrada. A garrafa agora atravessa a banha da barriga de Um. Morto. E levaram o aparelho eletrônico portátil. Algum vagabundo levou o aparelho eletrônico portátil de Um. Dois era o seu nome e ele corria feito um filho da puta. Mas sabe como é vida de vagabundo de rua. Vale menos que a vida de uma formiga. Dois foi atropelado por Três enquanto atravessava aquela rua que passa atrás da sua casa. Foi atropelado porque Três também corria, mas corria protegido por uma exteriorização metálica sobre rodas de sua personalidade. Modelo importado, com kit gás instalado e IPVA pago em dia. O corpo de Dois rolou por cima do parabrisa, mas Três estava pouco se fodendo. Não era a primeira pessoa que ele matava aquele dia. Era, na verdade, a terceira. Antes ele havia matado a própria esposa, que encontrara com o pau do dono do açougue – aquele açougue onde você compra asas de frango já temperadas – na boca. E, para não ser injusto, matou também o dono do açougue. Quatro e Cinco, a mulher adúltera e o açougueiro, vão ter os nomes estampados nas páginas do jornal que você lê toda amanhã. Talvez até suas fotos, ou ainda, as fotos de seus corpos mortos, ganhem um espaço. A matéria já está sendo apurada por Seis, que foi perguntar às autoridades competentes os números da violência na cidade em que você vive.
Gilmar Mendes, o censor
Encontrei a carta abaixo, do jornalista Leandro Fortes, no sítio da revista eletrônica NovaE. Nela o jornalista denuncia o fato de um programa da TV Câmara ter sido retirado do sítio da emissora a pedido do presidente do STF, o ministro Gilmar Mendes. Ao que parece, o ministro achou pouco interessante o debate sobre a Operação Satiagraha, a CPI das Escutas Telefônicas Ilegais, as ações contra Protógenes Queiroz e o grampo telefônico com o qual ele próprio estaria envolvido. Bastou então um telefonema ao presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, para que o programa fosse retirado da internet e da grade de programação da TV Câmara. Nas palavras do autor da carta, uma “submissão inexplicável”.
Dissemine a carta aberta do jornalista Leandro Fortes e não permita que Gilmar Mendes governe o País com suas atitudes.
Carta aberta aos jornalistas do Brasil
19/03/2009 20:54:59
Leandro Fortes
No dia 11 de março de 2009, fui convidado pelo jornalista Paulo José Cunha, da TV Câmara, para participar do programa intitulado Comitê de Imprensa, um espaço reconhecidamente plural de discussão da imprensa dentro do Congresso Nacional. A meu lado estava, também convidado, o jornalista Jailton de Carvalho, da sucursal de Brasília de O Globo. O tema do programa, naquele dia, era a reportagem da revista Veja, do fim de semana anterior, com as supostas e “aterradoras” revelações contidas no notebook apreendido pela Polícia Federal na casa do delegado Protógenes Queiroz, referentes à Operação Satiagraha. Eu, assim como Jailton, já havia participado outras vezes do Comitê de Imprensa, sempre a convite, para tratar de assuntos os mais diversos relativos ao comportamento e à rotina da imprensa em Brasília. Vale dizer que Jailton e eu somos repórteres veteranos na cobertura de assuntos de Polícia Federal, em todo o país. Razão pela qual, inclusive, o jornalista Paulo José Cunha nos convidou a participar do programa.
Nesta carta, contudo, falo somente por mim.
Durante a gravação, aliás, em ambiente muito bem humorado e de absoluta liberdade de expressão, como cabe a um encontro entre velhos amigos jornalistas, discutimos abertamente questões relativas à Operação Satiagraha, à CPI das Escutas Telefônicas Ilegais, às ações contra Protógenes Queiroz e, é claro, ao grampo telefônico – de áudio nunca revelado – envolvendo o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás. Em particular, discordei da tese de contaminação da Satiagraha por conta da participação de agentes da Abin e citei o fato de estar sendo processado por Gilmar Mendes por ter denunciado, nas páginas da revista CartaCapital, os muitos negócios nebulosos que envolvem o Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), de propriedade do ministro, farto de contratos sem licitação firmados com órgãos públicos e construído com recursos do Banco do Brasil sobre um terreno comprado ao governo do Distrito Federal, à época do governador Joaquim Roriz, com 80% de desconto.
Terminada a gravação, o programa foi colocado no ar, dentro de uma grade de programação pré-agendada, ao mesmo tempo em que foi disponibilizado na internet, na página eletrônica da TV Câmara. Lá, qualquer cidadão pode acessar e ver os debates, como cabe a um serviço público e democrático ligado ao Parlamento brasileiro. O debate daquele dia, realmente, rendeu audiência, tanto que acabou sendo reproduzido em muitos sites da blogosfera.
Qual foi minha surpresa ao ser informado por alguns colegas, na quarta-feira passada, dia 18 de março, exatamente quando completei 43 anos (23 dos quais dedicados ao jornalismo), que o link para o programa havia sido retirado da internet, sem que me fosse dada nenhuma explicação. Aliás, nem a mim, nem aos contribuintes e cidadãos brasileiros. Apurar o evento, contudo, não foi muito difícil: irritado com o teor do programa, o ministro Gilmar Mendes telefonou ao presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, do PMDB de São Paulo, e pediu a retirada do conteúdo da página da internet e a suspensão da veiculação na grade da TV Câmara. O pedido de Mendes foi prontamente atendido.
Sem levar em conta o ridículo da situação (o programa já havia sido veiculado seis vezes pela TV Câmara, além de visto e baixado por milhares de internautas), esse episódio revela um estado de coisas que transcende, a meu ver, a discussão pura e simples dos limites de atuação do ministro Gilmar Mendes. Diante desta submissão inexplicável do presidente da Câmara dos Deputados e, por extensão, do Poder Legislativo, às vontades do presidente do STF, cabe a todos nós, jornalistas, refletir sobre os nossos próprios limites. Na semana passada, diante de um questionamento feito por um jornalista do Acre sobre a posição contrária do ministro em relação ao MST, Mendes voltou-se furioso para o repórter e disparou: “Tome cuidado ao fazer esse tipo de pergunta”. Como assim? Que perguntas podem ser feitas ao ministro Gilmar Mendes? Até onde, nós, jornalistas, vamos deixar essa situação chegar sem nos pronunciarmos, em termos coletivos, sobre esse crescente cerco às liberdades individuais e de imprensa patrocinados pelo chefe do Poder Judiciário? Onde estão a Fenaj, e ABI e os sindicatos?
Apelo, portanto, que as entidades de classe dos jornalistas, em todo o país, tomem uma posição clara sobre essa situação e, como primeiro movimento, cobrem da Câmara dos Deputados e da TV Câmara uma satisfação sobre esse inusitado ato de censura que fere os direitos de expressão de jornalistas e, tão grave quanto, de acesso a informação pública, por parte dos cidadãos. As eventuais disputas editoriais, acirradas aqui e ali, entre os veículos de comunicação brasileiros não pode servir de obstáculo para a exposição pública de nossa indignação conjunta contra essa atitude execrável levada a cabo dentro do Congresso Nacional, com a aquiescência do presidente da Câmara dos Deputados e da diretoria da TV Câmara que, acredito, seja formada por jornalistas.
Sem mais, faço valer aqui minha posição de total defesa do direito de informar e ser informado sem a ingerência de forças do obscurantismo político brasileiro, apoiadas por quem deveria, por dever de ofício, nos defender.
Leandro Fortes
JornalistaBrasília, 19 de março de 2009
Foram enviadas cópias desta carta para Sérgio Murillo de Andrade, presidente da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj); Maurício Azedo, presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI); e Romário Schettino, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF)
