Estava
Dobrou a esquina com o coração aos pulos. Depois de tantos anos, por Deus, tantos! Finalmente… Parou antes da cancela descer, ouvira a sinalização sonora. Contou os vagões, os 16, todos de carga. Imaginou como gostaria de ter vivido anos atrás, quando havia vagões de passageiros naquela linha. A cancela subiu, ele atravessou os trilhos, desceu a rua. No final dela, a praça, a árvore, lembrou de Tereza, lembrou de Lia e das saídas da missa. A velha igreja ainda estava lá, ainda com o campanário em ruínas. Por aqui nada se reforma.
Já ia pelo outro lado da praça, o coração sem encontrar compasso, palpitando. Passou por um bando de meninos chutando lata. Era fim de tarde e as pessoas saíam para tomar a fresca, os mais velhos em cadeiras nas calçadas. Alguém reparou nos pássaros voando baixo, outro em como tem mosca hoje: deve chover. Passou a rezadeira, “Ê, Miguilim, não pede a bença?” Os olhos pesaram, nublaram, “Bença, madrinha”. A velha abençoou e seguiu seu caminho. Ele a viu atravessar a praça. A madrinha não reparara que ele estivera fora todos aqueles anos ou os anos simplesmente não passaram por ali.
Chegou no portão, ajeitou o paletó, pegou o lenço, secou o suor do pescoço, bateu palmas. Veio a tia vestindo preto, vela acesa na mão. O cachorro veio atrás, ressabiado. “Fez boa viagem, meu filho?” O nó na garganta ficou apertado. Arrumou o nó da gravata. “Fiz sim, minha tia… Ela tá lá dentro?” Estava.

“as pessoas saíam para tomar a fresca” É brisa essa fresca?
Gostei como no último parágrafo a ausencia dela, cria a perfeita imagem de uma mãe morta. Bota sujeito oculto nisso!
Bruno
12 fev 09 às 19:52
adorei esse conto!
seu site novo está lindissimo.
Parabéns!
Beijos,
Antonia
antonia
13 fev 09 às 19:25