Bernardo Vianna

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Estava

2 comentários

Dobrou a esquina com o coração aos pulos. Depois de tantos anos, por Deus, tantos! Finalmente… Parou antes da cancela descer, ouvira a sinalização sonora. Contou os vagões, os 16, todos de carga. Imaginou como gostaria de ter vivido anos atrás, quando havia vagões de passageiros naquela linha. A cancela subiu, ele atravessou os trilhos, desceu a rua. No final dela, a praça, a árvore, lembrou de Tereza, lembrou de Lia e das saídas da missa. A velha igreja ainda estava lá, ainda com o campanário em ruínas. Por aqui nada se reforma.

Já ia pelo outro lado da praça, o coração sem encontrar compasso, palpitando. Passou por um bando de meninos chutando lata. Era fim de tarde e as pessoas saíam para tomar a fresca, os mais velhos em cadeiras nas calçadas. Alguém reparou nos pássaros voando baixo, outro em como tem mosca hoje: deve chover. Passou a rezadeira, “Ê, Miguilim, não pede a bença?” Os olhos pesaram, nublaram, “Bença, madrinha”. A velha abençoou e seguiu seu caminho. Ele a viu atravessar a praça. A madrinha não reparara que ele estivera fora todos aqueles anos ou os anos simplesmente não passaram por ali.

Chegou no portão, ajeitou o paletó, pegou o lenço, secou o suor do pescoço, bateu palmas. Veio a tia vestindo preto, vela acesa na mão. O cachorro veio atrás, ressabiado. “Fez boa viagem, meu filho?” O nó na garganta ficou apertado. Arrumou o nó da gravata. “Fiz sim, minha tia… Ela tá lá dentro?” Estava.


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Escrito por Bernardo Vianna

Publicado às 10:47 de 11/02/2009

Arquivado na categoria Conto breve

Etiquetas: prosa

2 comentários para 'Estava'

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  1. “as pessoas saíam para tomar a fresca” É brisa essa fresca?

    Gostei como no último parágrafo a ausencia dela, cria a perfeita imagem de uma mãe morta. Bota sujeito oculto nisso!

    Bruno

    12 fev 09 às 19:52

  2. adorei esse conto!
    seu site novo está lindissimo.
    Parabéns!
    Beijos,
    Antonia

    antonia

    13 fev 09 às 19:25

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