Essa é a cara da democracia: o documentário político e os novos movimentos
Em novembro de 1999, milhares de ativistas anticapitalistas ocuparam as ruas de Seattle para impedir que fosse realizada uma importante reunião da Organização Mundial do Comércio. Como um preparativo para tais manifestações, havia sido criado o Centro de Mídia Independente, um coletivo de ativistas da comunicação que disponibilizaria meios para que os manifestantes pudessem contar sua própria versão dos fatos, em oposição à cobertura da mídia hegemônica, e mostrar ao mundo o quão democráticos são os procedimentos e decisões da OMC. Com as imagens captadas ao longo das manifestações por mais de uma centena de ativistas, Jill Friedberg e Rick Rowley, da produtora de mídia radical Big Noise Films, montaram o documentário “Essa é a cara da democracia”, lançado em 2000. Às cenas captadas foram somadas entrevistas com intelectuais e ativistas do movimento antiglobalização, construindo assim um belo panorama da crítica que então era feita ao modelo de organização da sociedade definido pela cúpula da OMC.
Não começou em Seattle
A segunda metade do século XX e o princípio do XXI trouxeram mudanças significativas para toda a comunidade terrestre tanto em aspectos econômicos e políticos quanto sociais e culturais. Ao observar isso, autores como Alain Touraine e Daniel Bell se ocuparam em analisar esta nova organização das relações humanas e passaram a falar em sociedade pós-industrial, caracterizada principalmente pela hegemonia do capitalismo financeiro que, ao longo dos anos 1990, tornar-se-ia global. Em resposta a esse processo, as ruas de cidades como Seattle, Londres, Praga, Quebéc e Gênova foram tomadas por manifestações de ação direta, pacíficas ou não, conduzidas por multidões – no sentido que Negri e Hardt dão à palavra – cujas reivindicações ou tendências políticas, por mais diversas que fossem, tinham em comum a crítica radical ao capitalismo. Os movimentos sociais, os coletivos de ativistas e as pessoas que de forma autônoma participaram destes distúrbios receberam, por se oporem à globalização capitalista, o nome de movimentos antiglobalização, um termo que se mostrou bastante impreciso. A organização destes movimentos começou com um esforço de “globalização da resistência” por parte dos zapatistas de Chiapas que, em 1996, convocaram um encontro internacional que resultou, dois anos mais tarde, na Ação Global dos Povos. Um movimento social formado por movimentos sociais dos cinco continentes, a AGP foi responsável pelos Dias de Ação Global, manifestações e ações diretas simultâneas em diversas cidades do mundo contra reuniões do G8, OMC ou Banco Mundial. Outro termo que surgiu foi “nova esquerda” ou “novos movimentos”, em referência à “esquerda clássica”, cujas ferramentas e estratégias, ao menos em parte, passaram a mostrar-se obsoletas com a crise dos paradigmas industriais.
A esfera contra-hegemônica
Através do CMI – Centro de Mídia Independente foi possível a comunicação entre os grupos envolvidos nos protestos contra a Rodada do Milênio da OMC e entre estes e o mundo, relatando as ações dos manifestantes, seus objetivos e seu significado. Também a retaliação das forças policiais e de segurança pôde ser acompanhada através das redes telemáticas mundiais. O 30 de novembro de 1999 e os três dias seguintes acabaram por ocupar a memória daqueles que acompanharam as inúmeras cenas de confronto como “batalha de Seattle”, dada a violência das autoridades locais e nacionais que chegaram a decretar toque de recolher e estado de sítio nas ruas próximas à convenção.
De fato, após a dissolução do socialismo real e o anúncio do fim da história, a ideia que se tinha era de que o capitalismo havia triunfado e de que não haveria outra possibilidade de contestação. Para os analistas de então, a única alternativa ao capitalismo seria o tipo de socialismo cujo funeral se comemorava. Por isso, a “batalha de Seattle”, em novembro de 1999, foi um ponto crítico. Naqueles quatro dias de manifestações o mundo testemunhou uma nova geração de ativistas ocupar as ruas, impedindo a reunião da Rodada do Milênio da Organização Mundial do Comércio. As estratégias então empregadas, inspiradas na tradição anarquista-socialista e nos movimentos pacifista, ecologista e por direitos civis dos anos 60, diferiam da esquerda tradicional em especial por não se centrarem na figura de partidos ou sindicatos e por, em geral, não terem como objetivo a tomada do poder. Sua principal característica, na verdade, era a pluralidade de objetivos, abrangendo desde a consolidação do direito à moradia ou o impedimento de instalações de termoelétricas até a conscientização sobre questões de gênero e sexualidade. A visão política desse tipo de ativismo traduziu-se também em suas formas de organização logística, de preferência horizontal, ou seja, sem lideranças instituídas, e através da tomada de decisões a partir do consenso coletivo. Como dito anteriormente, o que se viu em Seattle começou anos antes com a articulação de diferentes movimentos sociais ao redor do mundo, mas aquela foi a primeira vez em que este tipo de ativismo foi largamente documentado e, com o sucesso do bloqueio à OMC, desta vez os ativistas haviam saído vitoriosos.
Em “Esta é a cara da democracia”, as imagens captadas pelos ativistas diretamente do interior dos conflitos conseguiram demonstrar de que lado estava a mídia hegemônica na ocasião. A montagem do documentário coloca lado a lado imagens das manifestações e da ação das autoridades de segurança locais e trechos de noticiários televisivos que faziam a cobertura do encontro de cúpula da OMC. A divergência entre as duas fontes de informação era clara. Para os ativistas, a imprensa independente não só serviu para levar ao mundo sua mensagem de resistência como também desempenhou uma função tática no desenrolar das manifestações, auxiliando na articulação entre a heterogeneidade de grupos envolvidos no bloqueio à OMC. Por outro lado, a mídia hegemônica parecia mais interessada em encontrar os responsáveis pela depredação de alguns estabelecimentos comerciais e demonstrar o bom trabalho feito pelas forças de segurança locais, em primeiro lugar a polícia e mais tarde a Guarda Nacional. Mesmo quando qualquer espécie de livre expressão foi proibido na região central de Seattle por um decreto municipal nenhum órgão da mídia hegemônica preocupou-se em buscar um ponto de vista diferente daquele do poder oficial. Esta atitude de alinhar-se à defesa da propriedade e da ordem, distorcendo fatos como os casos de abuso policial ou colocando de lado o questionamento da falta de liberdades básicas, deve ser observado como um sintoma. O documentário claramente procura mostrar como, sob a imagem de um jornalismo profissional, encontra-se um posicionamento de subordinação à cultura e à liderança do capitalismo, caracterizado pela defesa da propriedade e da liberdade econômica em detrimento das demais liberdades.
No trabalho realizado pelo CMI e na própria realização de “Essa é a cara da democracia”, por outro lado, somos confrontados por uma alegre alternativa: deslocar a luta pela democratização do acesso à comunicação para o campo da luta pela autonomia da comunicação. Como no slogan do CMI, tomado de uma letra de música de Jello Biafra, “Odeia a mídia? Seja a mídia!”
(O documentário “Essa é a cara da democracia”, com legendas em português, está disponível para download no sítio do CMI.)




fev 13, 2009 @ 18:52:24
Bernardo! Muito bem ver teu site aqui cara
Parece que fomos dois que passamos por remodelações
abr 03, 2009 @ 02:13:50
algo complicado para leer (primera vez que intento leer algo en portugues xD) pero interesante