Venéreo (ou De Vênus)

surge em efervescência fresca
como ideia insurreta
no topo da minha cabeça
se lança em saltos entre os seixos
às baixadas onde dormem
subterrâneas as sementes dos desejos
primeiro é feito filete d’água
umedecendo o leito seco
mas transborda com a chuva a calha
e sem pudor se faz líquida e certa
ao mar que com sua chegada desperta

Das reformas necessárias às calçadas

(publicado na revista JLetras)

Meus amigos estão chegando à cidade e faz-se necessário tomar certas providências. Em primeiro lugar, é preciso alargar as sarjetas. Estreitas como são, jamais conseguiremos dormir todos confortavelmente. Também é preciso de mais mesas em frente aos botequins pois as garrafas empilhadas serão muitas. Os camelôs terão de ser afastados para um canto em que não atrapalhem nossa marcha de vagabundos épicos. Ainda, é melhor que se apaguem as luzes dos postes para que não atrapalhem nosso amor que, sempre clandestino, de outra forma poderia ser denunciado. Se os homens de família ou os honestos proprietários nos virem, tolos e nus pelas calçadas, estaremos perdidos. Estes tipos são bem capazes de chamar as autoridades do corpo, para nos prender, ou do espírito, para nos exorcizar.

Tratamos aqui de uma questão política, de disciplinar através do espaço. Este homem médio tem a convicção de que as calçadas foram construídas para levá-lo em segurança à igreja, à escola, ao hospital, à bolsa de valores. Ele se ofende se transformamos o trajeto em lugar, a calçada em salão de baile. Mas meus amigos estão chegando dispostos a uma grande festa. Será preciso reordenar as calçadas. Vamos precisar de calçadas onde se possa esmolar dignamente. Vamos precisar de um terreno sem acidentes para que os saltos das prostitutas não se quebrem. Vamos precisar de arbustos de quando em quando para nos aliviar. Vamos precisar de bancadas para apoiar nossas latas de tinta e escadas para escalar as estátuas e desenhar-lhes bigodes. Vamos precisar de papel e algum anteparo para anotar as atas de nossas reuniões, nossos manifestos e nossos versos.

Enfim, será necessário que as calçadas em ambos os lados se alarguem até se tocarem no meio da rua – sim, expulsemos os carros, metal não se come. Feito isso, a cidade ruirá e todos seremos felizes até quarta-feira.

Essa é a cara da democracia

o documentário político e os novos movimentos

Em novembro de 1999, milhares de ativistas anticapitalistas ocuparam as ruas de Seattle para impedir que fosse realizada uma importante reunião da Organização Mundial do Comércio. Como um preparativo para tais manifestações, havia sido criado o Centro de Mídia Independente, um coletivo de ativistas da comunicação que disponibilizaria meios para que os manifestantes pudessem contar sua própria versão dos fatos, em oposição à cobertura da mídia hegemônica, e mostrar ao mundo o quão democráticos são os procedimentos e decisões da OMC. Com as imagens captadas ao longo das manifestações por mais de uma centena de ativistas, Jill Friedberg e Rick Rowley, da produtora de mídia radical Big Noise Films, montaram o documentário “Essa é a cara da democracia”, lançado em 2000. Às cenas captadas foram somadas entrevistas com intelectuais e ativistas do movimento antiglobalização, construindo assim um belo panorama da crítica que então era feita ao modelo de organização da sociedade definido pela cúpula da OMC.
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Vai acordar não?

desperta, pequenina
toma os florais
toma a homeopatia
toma o que te anima o dia
toma a pequena dose de melancolia
te ajeita e vem cá fora
te lava, não chora, birrenta
olha como já vai alto o sol
olha e desfaz esse teu olho sonolento
esse teu olho que insiste somente
no que é noturno e sonhado

eu sei, sonhos são teimosos
você foi sempre tão teimosa
você foi sempre tão sonho

Estava

Dobrou a esquina com o coração aos pulos. Depois de tantos anos, por Deus, tantos! Finalmente… Parou antes da cancela descer, ouvira a sinalização sonora. Contou os vagões, os 16, todos de carga. Imaginou como gostaria de ter vivido anos atrás, quando havia vagões de passageiros naquela linha. A cancela subiu, ele atravessou os trilhos, desceu a rua. No final dela, a praça, a árvore, lembrou de Tereza, lembrou de Lia e das saídas da missa. A velha igreja ainda estava lá, ainda com o campanário em ruínas. Por aqui nada se reforma.

Já ia pelo outro lado da praça, o coração sem encontrar compasso, palpitando. Passou por um bando de meninos chutando lata. Era fim de tarde e as pessoas saíam para tomar a fresca, os mais velhos em cadeiras nas calçadas. Alguém reparou nos pássaros voando baixo, outro em como tem mosca hoje: deve chover. Passou a rezadeira, “Ê, Miguilim, não pede a bença?” Os olhos pesaram, nublaram, “Bença, madrinha”. A velha abençoou e seguiu seu caminho. Ele a viu atravessar a praça. A madrinha não reparara que ele estivera fora todos aqueles anos ou os anos simplesmente não passaram por ali.

Chegou no portão, ajeitou o paletó, pegou o lenço, secou o suor do pescoço, bateu palmas. Veio a tia vestindo preto, vela acesa na mão. O cachorro veio atrás, ressabiado. “Fez boa viagem, meu filho?” O nó na garganta ficou apertado. Arrumou o nó da gravata. “Fiz sim, minha tia… Ela tá lá dentro?” Estava.

Epígrafe

“A Imprensa! Que quadrilha! Fiquem vocês sabendo que, se o Barba-Roxa ressuscitasse, agora com os nossos velozes cruzadores e formidáveis couraçados, só poderia dar plena expansão à sua atividade se se fizesse jornalista. Nada há tão parecido como o pirata antigo e o jornalista moderno: a mesma fraqueza de meios, servida por uma coragem de salteador; conhecimentos elementares do instrumento de que lançam mão e um olhar seguro, uma adivinhação, um faro para achar a presa e uma insensibilidade, uma ausência de senso moral a toda a prova… E assim dominam tudo, aterram, fazem que todas as manifestações de nossa vida coletiva dependam do assentimento e da sua aprovação… Todos nós temos que nos submeter a eles, adulá-los, chamá-los gênios, embora intimamente os sintamos ignorantes, parvos, imorais e bestas… Só se é geômetra com o seu placet, só se é calista com a sua confirmação e se o Sol nasce é porque eles afirmam tal coisa… E como eles aproveitam esse poder que lhes dá a fatal estupidez das multidões! Fazem de imbecis gênios, de gênios imbecis; trabalham para a seleção das mediocridades, de modo que…

- Você exagera, objetou Leiva. O jornal já prestou serviços.

- Decerto… não nego… mas quando era manifestação individual, quando não era coisa que desse lucro; hoje, é a mais tirânica manifestação do capitalismo e a mais terrível também… É um poder vago, sutil, impessoal, que só poucas inteligências podem colher-lhe força e a ausência da mais elementar moralidade, dos mais rudimentares sentimentos de justiça e honestidade! São grandes empresas, propriedade de venturosos donos destinadas a lhes dar o mínimo sobre as massas, em cuja linguagem falam, e a cuja inferioridade mental vão ao encontro, conduzindo os governos, os caracteres para os seus desejos inferiores… Não é fácil a um indivíduo qualquer, pobre, cheio de grandes idéias, fundar um que os combata…”

- Recordações do Escrivão Isaías Caminha – Lima Barreto

 
  
 
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